Opinião

A vida para lá do bem material

Carlos Calongo

A mudança ocorrida na semana passada no comando da Polícia Nacional, não estando em consideração as razões de fundo que potenciaram a referida ocorrência  representa, sem margem de dúvidas, um sinal inequívoco de que o actual paradigma social angolano obriga-nos a atenção permanente aos pequenos sinais que, conforme certa vez aqui já aludimos, podem provocar grandes problemas.

Nesta linha, a defesa do que é socialmente relevante constitui uma tarefa prioritária na forma de estarmos agrupados em sociedade, longe, portanto, de "vaidades" que para serem mantidas, muitas vezes, levam os seus actores à práticas de todo reprováveis no entendimento do mínimo ético aceitável nas relações  humanas.
Ou seja, a vida para lá do bem material, deve ser mais e melhor considerada.
A propósito, julgamos interessante um enunciado partilhado nas redes sociais, em que se lê " o chão que pisamos hoje será, num dia qualquer, o nosso telhado, que sobre nós irá desabar".
Ao referido enunciado atribuímos um profundo valor social à vida, ao ponto de partirmos para outras latitudes reflexivas sobre o muito que se lhe diga, do âmago do texto em referência.
E a primeira grande lição dele retirado leva-nos a conclusão de que o destino comum, enquanto humanos condicionados à morte, passa por um espaço de terra no cemitério, considerado a nossa última morada.
Quer isso dizer que ninguém passa desta para outra dimensão da vida - na evocação divina de que depois da morte há vida nos céus- sem que morra, e deixe todos os haveres que conseguiu enquanto peregrino nesta terra.
Outra grande lição que nos ocorre da frase que constitui o nervo desta reflexão é que, se nada levaremos no pós vida terrena, então, a humildade deve ser uma das divisas da nossa estadia na sociedade humana.
E claro que não se coloca, nem por hipótese, a necessidade de definir-se humildade, pois até no mais reles dos exemplos que temos da vida, cada um a seu jeito, sabemos definir o termo.
Desde logo, e olhando com sentimento interpretativo profundo, pela forma que muitos de nós adoptaram como sendo a melhor de estar no mundo, facilmente percebemos que temos de depurar muita coisa para que vivamos longe da visão do sábio Salomão para quem tudo isso não passa de "vaidade".
Vaidade em ter na garagem todos os carros topo de gama, alguns até sem representantes ou concessionárias em Angola, ao ponto de, por um filtro de óleo que se deteriore, correr-se o risco da mesma ficar parada por não existir no mercado doméstico, os sobressalentes.
Em linguajar menos coloquial, é como alguém que pretenda comer arroz doce e não tem leite nem açúcar.
Então, precisamos ser mais compassivos nos nossos actos, primar pela construção de uma sociedade mais cordata, solidária, partilhada, em que o amor ao próximo volte a ser um emblema da nossa matriz sócio-cultural, até porque o terreno que pisamos hoje e nos serve de suporte nesta fase, será o nosso telhado no momento final da vida que vale muito mais que o bem material que vai sendo o mote de muitas batalhas e intrigas entre os homens.

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