Opinião

A vida segue o seu curso de todos os dias

Osvaldo Gonçalves |

Todos os dias, de manhã bem cedo, só se escuta as vozes deles: “Vila-Estalaje-Bar”, “Vila direito-Escongolense”. São os chamadores dos candongueiros que partem da Vila Chinesa, em Viana.

Com as viaturas lotadas, ndutas e cubeles tomam os seus lugares, os primeiros de mãos no volante a tentarem rasgar as estradas parece são espiloto de rally, os segundos a darem uma de gerente, que é isso o que eles são na verdade, a arrumar os passageiros, “emagrece só uns coxe, mana dona”, enquanto contam o dinheiro, notas na mão, moedas numa velha garrafa de plástico cortada ao meio, sempre a conferir, sempre a conferir, quanto mais cedo fecharem o dia melhor. Completa a soma do patrão, o proprietário da viatura, dez mil kwanzas uns, vinte mil o outro, cada um-cada qual, segundo o pré-acordo estabelecido, nada escrito, tudo na palavra falada, ficam livres para facturar por conta própria.
A essa hora tão matinal, seis horas ainda por tocar, são os próprios motoristas e cobradores contratados a abrirem o expediente. Por norma, o nduta acorda o cubele, e ainda há tempo para pôr a conversa em dia, mambos de casa, dicas da nguenda com os amigos, copos, futebol, a campanha eleitoral, os tempos de antena na rádio e na televisão, ainda mais “aquela mboa, que lhe demo boleia daquela vez, mora na Cuca. Agora, mi pediu 20 mil para mudar a tiçage. O cobrador diz que essas mboas assim bué bonitas, corpo tipo viola, dão medo. Bué de wís que lhes querem, não usam camisinha, assim para “furar o pneu” é bem rápido, neste tempo mais?! Yá, um gajo tem de manter uma pausa, primeiros tempos muito controlo, “pisar no caco é problema!”, mas é difícil manter o controlo, “já fui lá, mesmo sem bibe, ‘távamos numa tia dela que vende birra, lhe paguei umas quatro, até fiz kilapi, ainda nem paguei, trolei a boa, ‘táva se bem. Não tinha dinheiro da pensão, foi mesmo no carro. Eu cheio de medo, a banda ‘tava bem escuro...”
“Vucê mais?! Vila direito-escongolese a sair! Vambora, mana moça? Mudinda o som. Põe aquela pen drive que te dei coele, ‘o corpo dela, uaué, corpo dela! A saia dela, hum, a saia dela’. Xê, essa keta me kuia máli! Lavançaste mêmo assim, de tronco nu? Vucê mandas coragi, yá!” “Yá, tava sem bibe. Mas, também, só bem a postura dela. ‘Tá em dia! “O  corpo dela, hum, corpo dela! A saia dela, uaué, a saia dela’”.
O cronista ouve a conversa, faz anotações mentais. Dava uma bela crónica. Mas como escrevê-la sem este linguajar? A estória tem sumo, sim, mas o ponto forte está nas palavras. Como ia reproduzir essas falas tão singulares? Quem faria a revisão do texto? Os erros são conhecidos, os esses do plural comidos no fim das palavras, escorregam para o início. Congolenses passam a escongolense, lambulas passam a eslambula, asfrita e asgrelhada com cebolaspicada. Mas quem faria a revisão? E os leitores entenderiam? Falar assim é normal, escrever dessa forma é bico d’obra, salu guda! O assunto dá um bom artigo, essa juventude não tem o mínimo de cuidado, sexo sem camisinha com tanta doença por aí? A “postura” dela. Tudo “em dia”. “O  corpo dela, hum, o corpo dela! A saia dela, uaué, a saia dela”.
Foi toda a viagem a pensar na crónica. Chegou aos Congolenses. Ouviu outro chamador: “1º de Maio de cem-Mutamba!” Mudou de táxi e esqueceu-se do assunto. Mas, no dia seguinte, manhã bem cedo, dia ainda a sespriguiçar com este Cacimbo teimoso, ouviu: “Vila-Estalaje-Bar”, “Vila direito-Escongolense”. Eram os chamadores dos candongueiros que partem da Vila Chinesa, em Viana. A vida segue o seu curso de todo os dias. A crónica não pode parar. “Show must go on”.

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