Opinião

Adeus, amigo

Caetano Júnior

O infortúnio bateu-nos à porta. A morte, com todo o peso dramático que a caracteriza, com toda a carga funesta que porta, irrompeu esta casa de imprensa adentro, anunciando a tragédia.

O homem de incontáveis afazeres, o jornalista, o paginador, o criativo da publicidade, o técnico da Doleven - marca da velha máquina que expelia películas, no tempo da produção mecânica -, enfim, o artista por quem se procurava, quando qualquer outra inteligência se mostrava incapaz de dar resposta a um aperto de última hora, deixou-nos.
António Ferreira Gonçalves, o Aleluia, para a maioria de nós, e até para quem com ele nunca partilhou segredos, partiu. Levou-o o mal supremo; derrotou-o a mãe das desgraças. Aleluia saiu para a viagem eterna, há algum tempo anunciada, mas agora concretizada, infelizmente, para os que ficam, chorosos. Tirou-lhe a invencibilidade quem tem poder para legislar sobre quem fica ou parte. Saiu do nosso convívio um companheiro, um amigo, um colega, um brother. Daqueles em quem confiamos de olhos vendados, porque de coração bondoso, capaz de acolher o mundo, mesmo quando sabia que, no pequeno músculo que o peito guarda, não sobrava espaço para mais caridade, nem pulsar para outros gestos de solidariedade.
Partiu um irmão talhado e costurado para a vida, independentemente da dimensão do desafio e do tempo, em horas, que viesse a durar. Enluta-nos, também, o António Ferreira Gonçalves, que não era só labor. Era o Aleluia, muito provavelmente a figura mais divertida que se podia encontrar e agradável no momento em que o lazer e o entretenimento atiravam para o lado as preocupações com o trabalho, intenso, na azáfama da Redacção ou na desafiante área da Publicidade.
Faz-nos contorcer de dores um jornalista mais do que comprometido com a profissão, que a abraçou há mais de 40 anos, quando ainda ele próprio mal se conhecia, vivia os tempos dourados da adolescência. António Ferreira Gonçalves morreu no seu ofício. Ele insistiu, teimosamente, em mostrar trabalho, mesmo quando a doença já lhe não permitia veleidades, como a de continuar a escrever, principalmente, sobre o andebol, modalidade que o tornou conhecido e respeitado, inclusive à escala internacional. Mas ele já nada precisava de nos provar. Devia, pois, resguardar-se destes derradeiros esforços para nos mostrar de que fibra era feito, quando a enfermidade, insaciável, exigia-lhe cada vez mais, a cada notícia, a cada artigo ou a cada reportagem.
Sai de cena um incansável lutador. Mesmo contra a morte, resistiu até à última gota de sangue e ao derradeiro sopro de vida. Aleluia deixa-nos tolhidos pela dor e amarfanhados pelo sofrimento, chorosos de saudades que nos começam a cercar. Mas deixa-nos também orgulhosos por nos ter aceitado como colegas, companheiros, admiradores e aprendizes seus. Ele não o sabe, se calhar, mas temo-nos conscientes de que o seu legado na Edições Novembro, no nosso Jornal de Angola, título que ajudou a consagrar, tem continuidade, porque, por aqui, amontoam-se os que lhe seguem as pegadas, os que o têm como o farol aceso para a embarcação à deriva.
A morte do Aleluia, como outra, volta a trazer à luz a velha questão da fragilidade do fio que liga o ser humano à existência. Onde encaixar a partida de alguém com tamanho vigor para a vida; com tanta força de vontade e crer em que o dia seguinte o encontrará a respirar a plenos pulmões? Para onde terá ido tanta energia que emanava deste ser permanentemente comprometido com o amanhã? É, afinal, nisso que se resume a vida? Uma fugaz passagem pelos encantos da natureza?
Em síntese, valemos muito pouco ou quase nada. Não passamos de seres a prazo e é para esta realidade que devemos despertar. Não há como entender a morte, quando desce para reclamar vidas e disseminar a tragédia entre os que ficam, também eles temerosos do dia que os aguarda. Porque há de chegar. Por mais que nos preparemos para o evento, a partida de um ente será sempre inesperada.
Adeus, amigo, ou “avilão”, como dizias. Dorme o sono eterno, que nós aguardamos aqui.

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