Opinião

Adeus, menino do Rocha Pinto

José Luís Mendonça |

Não foi numa sexta-feira, nem foi dia 13. Foi num dia assim cor de cinza, com névoa deste Cacimbo. Ali na grande avenida 21 de Janeiro, na zona do Rocha Pinto. Debaixo da ponte pedonal. Ia eu a conduzir, a meio da tarde (quem vem para a cidade não espera, quem vai é que sofre delongas), e vejo o engarrafamento. Ou era acidente, ou maka do bairro.

Lá fomos nos aproximando, eu e o meu companheiro que só bebe gasolina, malembe-malembe, até ver a ponte metálica tão cheia de curiosos que parecia haver doação do PAM ou coisa parecida. À volta, e em cima do paredão que divide a via quase-expressa do bairro, estava outra colecção de jovens espicaçados pelo mambo que havia retorcido a árvore do dia-a-dia.
Quando o meu companheiro que só bebe gasolina chegou bem debaixo da ponte, senti outro Cacimbo na alma. Um menino do Rocha Pinto, dos seus 15 ou 16 anos estava deitado na via pública, no caminho dos carros. Estava dormido de barriga no asfalto. Parecia um anjo que tinha aberto as portas grandes do sono. A calça jínesse meia descaída deixava antever a boxe cinza-clara e um dos ténis estava saído do pé esquerdo. Braços (ou asas) ao longo do corpo. A cara do menino me doeu bué, de lado no asfalto, como quem sonha um grande sonho. A bochecha do lado esquerdo estava meio esfacelada e vermelha de sangue. A polícia já tinha chegado e montado guarda ao paraíso de dois metros quadrados que Deus tinha construído para o menino do Rocha Pinto. 
No meio do engarrafamento, cercado de olhos ávidos de comer aquele desacontecimento acontecido, o gelo que me dera na alma derreteu: de entre toda aquela gente que estava em cima da ponte, não podia ter saído uma voz, uma voz sozinha que fosse, a dar conselho, xé, menino não passa na estrada!
Eu gostava tanto que o Waldemar Bastos, criasse uma nova canção, só que em vez de cantar, xé, minino, não fala política, cantasse, xé, minino do Rocha Pinto, não passa na estrada, xé, minino do Rocha Pinto, passa ainda na ponte, na estrada podem te matar, e depois já não vais jogar a bola, nunca mais vais ver mais a tua garina, nunca mais vais comer o funge da tua mamã, nunca mais vais dançar o kuduru com os kambas lá da banda!
Peço ao administrador do Rocha Pinto para desencadear uma campanha enorme, porta a porta, como se faz campanha de vacinação, com os escuteiros todos vestidos à maneira, ali a distribuir panfletos pequeninos como esses que os mestres de makumba fazem distribuir nos semáforos a propor curas contra males que estragam o corpo e tornam a alma amarga, peço aos PCA das nossas televisões e das nossas rádios, peço aos professores: por favor, digam isto aos meninos do nosso país: NÃO PASSEM DEBAIXO DA PONTE ONDE PASSAM OS CARROS, O PAÍS PRECISA DE VOCÊS! Peço com todo o carinho, peço até de joelhos, aos agentes de regulação do trânsito, em vez de estarem só a pedir gasosa a toda a hora e a todo o minuto, que alertem a população onde estivessem a actuar, para que nenhum cidadão atravesse mais as estradas debaixo das pontes. E peço aos fiscais que só andam atrás das zungueiras e dos vendedores ambulantes, que fiquem de plantão em cada ponte pedonal que o Governo colocou na via-expressa e obriguem os nossos jovens a subir na ponte. 
Peço-o com todas forças da minha vontade de pedir a todos esses agentes sociais, porque ainda ontem ia eu a passar com o meu companheiro que só bebe gasolina, ali na mesma via do Rocha, e não é que me surge de repente um jovem a atravessar mesmo debaixo da ponte?! Foi quando constatei que as redes de protecção que o Governo lá montou estão vandalizadas, arrumadas no solo, junto ao asfalto. 
A ti, menino do Rocha Pinto, que deixei ali na 21 de Janeiro a dormir como um anjo no asfalto, mesmo por baixo da ponte, a ti, saído daquele poema de Fernando Pessoa, “jaz morto e arrefece o menino de sua mãe”, dedico esta crónica. Levanta desse teu sono eterno e empurra os teus kambas do Rocha para cima da ponte.
Adeus, menino do Rocha Pinto. 

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