Opinião

Afinal o que queremos?

Carlos Calongo

A história da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém no dia conhecido pelos cristãos como o Domingo de Ramos é marcada, dentre outros acontecimentos, pela ovação da multidão, para quem o acto exponenciava a presença de um ser supremo, cuja hercúlea missão passava por alterar o paradigma da vida de um povo deleitado no pecado.

Reza a história que enquanto Jesus seguia rumo ao templo onde ensinou as pessoas, as sarou, expulsou os cambistas e comerciantes. Aquelas saudaram e louvaram-no dizendo: "Bendito o que vem em nome do Senhor", que era digno de “Hosanas” e “Aleluias” manifestadas em cânticos.
A alegria daquele momento em nada fazia prever uma alteração brusca na relação, e que a mesma população que entoou “Hosana ao filho de David”, fosse apelar a morte de Jesus por via da crucificação, em detrimento da libertação de Barrabás apresentado na bíblia como um malfeitor qualificado por inúmeros actos indignos a sã convivência social.
Pretendemos, assim, analisar e compreender as razões da mudança drástica do comportamento da população que, de integrantes da corte apoiante de Jesus de Nazaré à quem chamavam de Salvador da humanidade, num ápice passou a delatora e revoltada com Ele, transformando as “Hosanas” em “Crucificai-o”!
Dos relatos bíblicos acima referidos, a verdade deve ser entendida como propriedade de cada um por via da crença e da fé com que se liga ao mundo da espiritualidade cristã, e deposita esperança num mundo além da dimensão terrestre da vida, onde todos não passam de simples humanos e, por isso, falíveis e mortais.
É nesta condição de humanos, falíveis e simples mortais, que baseamos a relação de comparação entre o relato bíblico que serve de intróito desta reflexão cujo objectivo é abordar a forma volátil como determinados cidadãos têm reagido a certos acontecimentos da política doméstica angolana.
Para substância deste texto, o exemplo é extraído das reacções à volta do julgamento do ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, a quem o Tribunal Supremo condenou a 14 anos de prisão efectiva, sem que para aqui sejam considerados os recursos apresentados que provocaram efeitos suspensivos à pena, até o Tribunal analisar os argumentos de razão dos mandatários do ex-servidor público.
Na sequência dos factos, sobretudo após a primeira decisão do Tribunal, os comentários que desabonam o órgão enquanto operador da justiça subiram de tom, com acusações de todo o tipo, muitas delas em direcção a que Augusto Tomás não foi o único que falhou no exercício das funções.
Ainda que seja considerada válida a afirmação que acima se acha, ela não tem fundamento para que Augusto Tomás não fosse condenado perante os factos que o Tribunal deu por provados, e que alguns acham não serem justos, porquanto o citado ex-governante não foi o único que violou as normas de gestão dos recursos públicos que estiveram sob sua guarda, enquanto gestor público. Ai, se a moda pega...
Com base neste tipo de comentários e a considerar o bem de que se reveste o combate sem tréguas que aos amantes dos actos lesivos ao bom nome do Estado e da gestão da coisa pública deve ser feito, ficamos sem perceber as reais motivações para a mudança de discurso por parte de certos compatriotas, alguns dos quais aplaudiram as acções de investigação de casos envolvendo antigos servidores públicos.
Se não forem meras incongruências, confessamos alguma dificuldade em compreender os paladinos de tais actos, quando até se sabe que de forma directa ou indirecta, grande parte dos angolanos são ou foram vítimas do modo fraudulento como determinados gestores públicos despenharam as suas funções, ao tempo em que imperava quase que uma instituída lei do “Quem não rouba é burro”.
Entretanto, numa altura em que se configura essencial a moralização da sociedade por via de todas as acções possíveis, fica difícil compreender como existem pessoas que defendem a manutenção dos erros que gangrenaram a sociedade angolana, tornando-a num País que quase experimentou a falência social. Afinal o que queremos?

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