África refém de velhos problemas

Osvaldo Gonçalves
18 de Março, 2017

O mundo enfrenta a maior crise humanitária desde 1945, com mais de 20 milhões de pessoas ameaçadas pela fome em apenas quatro países. A informação é do coordenador dos serviços humanitários das Nações Unidas, Stephen O’Brien, na sequência de uma série de avisos da organização a alertar para a necessidade de uma tomada de posição conjunta dos estados membros da ONU.

“Sem esforços globais colectivos e coordenados, as pessoas simplesmente vão morrer de fome”, afirmou O’Brien, no Conselho de Segurança. E acrescentou: “muitos mais vão sofrer e morrer de doenças”. Há mais três milhões de pessoas com fome crónica do queem Janeiro último. Para enfrentar a situação, são necessários 4400 milhões de dólare até Junho.
A pior situação é a do Iémen, onde 18,8 milhões de pessoas, cerca de dois terços da população, precisam de ajuda e mais de sete milhões vivem em situação de fome, sem saberem de onde vem a próxima refeição. Só para este país, a ONU aponta serem necessários 2100 milhões de dólares para acurdir 12 milhões de pessoas.
No Iémen, duas entidades reivindicam constituir governo: os separatistas do Sul em conluiu com as forças leais ao regime de Abd Rabbuh Mansur Hadi e os rebeldes houtis.
Os rebeldes houtis, que registaram avanços no início do conflito, com os combates a deflagrarem na província de Taiz, cuja capital foi tomada, e a seguir Mocha e Ladj e a chegarem aos arredores de Áden, a sede do poder do governo de Hadi, são acusados de receber apoio do Irão, país com quem partilham a fé xiita, embora Teerão negue tal afiliação. Já o lado governamental tem o apoio dos Estados Unidos e das monarquias árabes do Golfo, com realce para a Arábia Saudita, destacado aliado norte-americano. Além do choque entre potências estrangeiras, vários ataques são reivindicados ou atribuídos à al-Qaeda na Península Arábica e o Estado Islâmico.
As verdadeiras causas do conflito são mesmo o controlo da região, com destaque para o golfo de Aden, via marítima essencial para o petróleo do Golfo Pérsico.
A situação crítica no Iémen, que se vem juntar às catástrofes humanitárias e crise de refugiandos actuais na Síria e Iraque, preocupa sobremaneira as organizações ligadas à problemática dos refugiados, por ser este país o destino de milhares de pessoas fugidas de outros Estados em conflito, sobretudo, no Norte de África. Estima-se que mais de 12.500 refugiados e outros migrantes chegaram ao Iémen em barcos de contrabandistas no passado mês de Outubro, o que fez subir para 84.656 o total registado no ano passado.

Conflitos em África

Os outros três países afectados pela catástrofe anunciada pela ONU são africanos: Sudão do Sul, Somália e Nigéria, onde decorrem lutas fratricidas e se registam acções de puro terrorismo levadas cabo por grupos extremistas, que recorrem a supostos argumentos religiosos para encapotar o objectivo da tomada do poder e a criação de regimes totalitários.
No Sudão do Sul, as tropas governamentais do Presidente Salva Kiir e os combatentes leais ao ex-vice-Presidente e líder rebelde, Riek Machar, enfrentam-se há três anos, com acusações mútuas. Os resultados são catastróficos, de acordo com Stephane Dujarric, porta-voz do secretário-geral: “Os nossos colegas da missão da ONU no Sudão do Sul disseram estar profundamente preocupados com o surgimento de combates nas imediações de Malakal entre o Exército Popular de Libertação do Sudão e o Exército Popular de Libertação do Sudão na Oposição”.
Segundo a ONU, há 7,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda, mais 1,4 milhões do que há um ano. O país tem ainda 3,4 milhões de deslocados devido aos confrontos.
O Sudão do Sul, o país mais jovem do planeta, possui 75 por cento das reservas de petróleo do antigo Sudão, mas desde a sua independência conhece sucessivos conflitos pelo poder, que vêm agravar a situação económica dos seus habitantes, vítimas de largos anos de guerra contra o governo de Cartum.

País de anarquia


Na Somália, cerca de 2,9 milhões de pessoas estão em risco. Há seis anos, morreram 260 mil pessoas. No início deste mês de Março, morreram à fome 110 pessoas em apenas 48 horas.
No país que se tornou já caso de estudo devido ao fracasso total das instituições, em face do poder mantido pelos senhores da guerra há várias décadas que o tornaram numa verdadeira anarquia, 6,2 milhões de pessoas, ou seja, metade da população, precisam de assistência e cerca de três milhões estão sem o que comer.
Estima-se que quase 950 mil crianças menores de cinco anos enfrentem desnutrição aguda este ano e que uma entre sete crianças somalis sequer chegue a completar o quinto aniversário. O país tem 185 mil menores a correr o risco de morrer se não receberem tratamento médico imediato, com os casos de diarreia e cólera a aumentarem.
Embora o Governo Federal de Transição seja reconhecido internacionalmente como o governo da Somália, o país denota grave falta de acessibilidade por parte das organizações de ajuda humanitária. A agravar a situação, largas áreas do território são assoladas pela seca, o que piora os riscos de fome e má nutrição.
A actual situação já é comparada à de 2011, quando 260 mil pessoas morreram. O plano humanitário da ONU para o país depende de 825 milhões de dólares até Junho. Até ao momento, foram recebidas doações de 100 milhões. A soma total de valores para atender a fome provocada pela seca naquela região, a que se juntam o Quénia e a Etiópia, é de dois mil milhões de dólares neste período.
A região nordeste da Nigéria vive “a maior crise” de África, refere a organização, que aponta o dedo ao grupo Boko Haram. Os extremistas matararam 15 mil pessoas e obrigaram mais de dois milhões de nigerianos a deixar as suas casas. A ONU aponta a existência de 7,1 milhões de pessoas sem o que comer, depois de, em Dezembro último, ter estimado em 75 mil o número de crianças em risco de morrerem desnutridas.

Velhos problemas


Num momento em que se apela para a conjugação de esforços, pairam sobre África graves interrogações sobre a capacidade dos Estados afectados pela crises e das organizações regionais de que fazem parte e em cujos territórios estão inseridas de fazer face à situação, por razões não apenas políticas, mas também económicas e, em certos casos, morais.
A economia africana consiste na agricultura, maioritariamente rudimentar e de subsistência,comércio e indústria, sobretudo, extractiva, onde é esmagador o peso dos investimentos externos. Com vastos recursos a serem explorados e ainda em pesquisa, o continente é mais conhecido pelos índices de pobreza gritantes. Cerca de 1/3 dos mais de 800 milhões de habitantes de África vivem com menos de um dólar por dia. O continente é o mais pobre do Mundo, com um PIB total de apenas um por cento do PIB mundial e participante em apens dois por cento das transacções comerciais do planeta, além de ter a sua população afectada por várias infracções. Estima-se que quase dois terços dos portadores do vírus HIV vivam em África.
O baixo nível de desenvolvimento tem ligação directa com a colonização, que abriu crateras profundas no tecido social e na organização dos Estados africanos, mas, desde a descolonização, que os povos africanos sofrem pelo descaso das suas autoridades, enquanto vêem agigantar-se o fenómeno corrupção, que contribui ainda mais para o empobrecimento da economia.
Os diversos conflitos internos derivam da cobiça pelos recursos existentes, que deixa África, o segundo continente mais populoso do mundo, depois da Ásia, com 63 por cento dos habitantes a residirem em áreas rurais, cada vez mais atirados para o subdesenvolvimento e de mão estendida à ajuda humanitária.

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