Opinião

Ainda a (in)competência

Arlindo dos Santos

Enquanto uns se entretêm com a novela “Luanda Leaks”, cada qual a aguardar por um final feliz para o artista preferido, eu viro-me para outro assunto.

Para a minha preocupação do momento. O surto do coronavírus de consequências imprevisíveis é uma questão mundial, nós enfrentamos particularmente a que “estamos com ela”. Refiro-me às (in) competências na governança do país e às expectativas geradas em torno da saída da crise. Eu, cidadão angolano, no gozo dos meus direitos, requeiro com carácter de urgência, novos processos de organização e outras tomadas de decisão. Exijo o afastamento dos incapazes e o abandono das práticas que originam, entre outros males, o (aparente) não andamento da nossa carruagem.
A consciência reclama termos sido cúmplices na omissão de erros que ocorrem há décadas. Um sepulcral silêncio de toda a sociedade abateu-se sobre eles. Por razões que o tempo se encarrega de descobrir, muitos dos “quadros” e “responsáveis” nomeados por conveniências que nunca foram de serviço, revelam-se “flops”. Como os do futebol. Não dão mesmo nada! A desilusão tem marcado a sua passagem e com ela a certeza de que o nosso problema é mesmo o partido que governa o país desde que alcançámos a independência nacional.
Se nada tenho a ver com a forma como se deve, ou não, conduzir os destinos de um grande partido, tenho, contudo, direito e legitimidade de opinar sobre os passos que devem ser dados na condução dos destinos de uma portentosa nação como é a nossa. Ao longo dos anos, indicaram-se caminhos e foi dito. Que era necessária em tempo de paz, a tomada de medidas, perfeitamente ao alcance de um partido que vence eleições com maiorias absolutas. Foi nesse quadro que se falou da urgência da prevenção contra endemias como o paludismo e sobre cuidados primários de saúde. Foi nesse contexto que se abordou a premência da formação de professores para um ensino primário de qualidade. Foi assim que se perguntou pelo futuro dos reformados pensionistas, idosos e deficientes deste país. E ainda, sobre a organização do comércio rural e da agricultura familiar, das pescas, da cultura, da indústria e da recuperação e extensão das vias de comunicação, enfim, de todas as áreas da governação. Questionou-se a desburocratização no funcionalismo público e na instituição bancária. Fizeram-se variados apelos para se reverem os excessos em serviços de embaixadas e governos provinciais. E num ângulo de visão diferente, de poupança pouco cultivada, foi por muitas vezes sugerido outro critério para a definição da utilidade pública e melhor escolha das instituições beneficiárias, assim como se solicitou o emagrecimento do governo. Quantas vezes se falou da necessidade de menos ministros, secretários e directores no aparelho do Estado e da consequente diminuição da despesa pública? Mas, a triste verdade é que nada ou pouco se alterou, mantendo-se tudo ou quase tudo na mesma, a mesma estrutura, os mesmos salários, os mesmos subsídios, as mesmíssimas viagens, os cada vez mais potentes carros e as mordomias compatíveis, ficando o povo com a incómoda sensação de que enquanto os governados são obrigados a apertar o cinto, os governantes têm-no bem folgado.
Chegamos assim a este ponto crítico em que aumentam as frustrações da população à medida que vão sendo nomeados para os mais diversos cargos e por indicação do Éme, funcionários que não correspondem às expectativas e às necessidades reais do país. Em consequência, a incompetência fica fatalmente associada a corruptibilidade da sociedade, onde grassa o tráfico de influências gizado e apadrinhado pelo sempre poderoso partido no poder. Clara Ferreira Alves, num dos seus brilhantes escritos semanais e a propósito do que ocorre em Portugal, abordou esse fenómeno e mostrou como um partido se pode transformar num “clube dos próximos e dos íntimos conselheiros”. Por cá não se foge ao desígnio maldito e são inúmeras as evidências. A realidade aponta o ainda poderoso Éme como pessoa com sítio onde funciona uma “organização” do género. Supostamente, é a partir desse “clube” que, entre outras estratégias, se indicam os nomes para o exercício de cargos no governo e na alta direcção de empresas públicas. Bem ou mal feito, não me compete o julgamento, mas é a partir do pressuposto que me atrevo a aconselhar os camaradas para uma mudança de atitude no recrutamento. Por óbvios motivos, precisam de escolher entre os seus quadros técnicos, os competentes, mas com comprovada capacidade, os honestos e os patriotas. E também, fazerem demonstrações de que a Nação não se esgota no MPLA, e que ela está acima dos interesses partidários ou das ideias políticas dos parlamentares. Há muito mais vida e gente fora dessa engrenagem!
As manifestações explícitas de incapacidade e oportunismo – como as que nos são oferecidas com regularidade preocupante – inviabilizam qualquer proposta de boa governação no capítulo económico e social, de um país como Angola, cheio de potencialidades mas com inúmeros desafios a enfrentar e múltiplos problemas para resolver. Respeitem-se as prioridades dos partidos, porém, sem deixar para trás o interesse do país. De modo nenhum! Que se evite, pois, o modelo de exclusão interna que vigora, um protótipo mal concebido, a pôr claramente na prateleira ou em fuga, significativo número de quadros nacionais de que o país muito necessita. Que se dê continuidade a acções com o nível dos bons exemplos que se registam na justiça e na autoridade tributária e se abram frentes de combate contra a incapacidade, despertando-se do coma ideológico que nos sujeita. Que se deixe para trás o sentimentalismo militante. Temos a obrigação de dar aos cidadãos a sociedade com que sempre sonharam.

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