Opinião

Ainda a propósito da racionalidade luso-tropicalista e do paradigma da crioulidade

Filipe Zau |*

Valentin Mudimbe, um filósofo da República Democrática do Congo, no seu livro “A Invenção de África – Gnose, Filosofia e a Ordem do Conhecimento”, afirma, que diferentes discursos académicos criam mundos de pensamento, nos quais as pessoas concebem a sua própria identidade. Daí que os antropólogos ocidentais e missionários tenham criado distorções, não só em relação aos que vieram de fora, mas também em relação aos próprios africanos, ao procurarem compreendê-los. A endogeneidade, de acordo com Baba Akhib Haidara, em “Desenvolvimento e Educação em África”, “remete-nos para as fontes das tradições africanas, mas com um imperioso desejo de progresso e de modernização, de abertura sobre a comunidade”.

Sobre a epistemologia do saber endógeno para a caracterização da substância societal angolana, resultante do diálogo e do choque entre culturas étnicas e regionais do território que hoje se chama Angola, Victor Kajibanga recomenda a leitura de “Les Savoir Endogènes. Pistes pour une Recherche” de Pulin Hountondji e também “La Natte des Autres. Pour un développement endogène em Afrique” de Joseph Ki-Zerbo. Muito próximo das posições de Mário Pinto de Andrade, com suporte numa “(…) nova grelha (de leitura) teórica para a explicação dos factos e processos sociais angolanos”, que assenta numa sociologia (e epistemologia) do saber endógeno, Vítor Kajibanga refuta aquilo a que ele próprio chama de “racionalidade luso-tropicalista e paradigma da crioulidade”.
Ao refutar a teoria da crioulidade (a variante do luso-tropicalismo para Angola), afirma haver um “carácter falacioso do mito do não racismo português, que os insignes teóricos da crioulidade também pretendem defender e eternizar de forma camuflada”. Para além do que já vamos ultimamente lendo em diários portugueses, já antes, os angolanos Mário Pinto de Andrade, Arlindo Barbeitos, Maria da Conceição Neto e Paulo de Carvalho, entre outros, haviam desmontado essas doutrinas. Mas, também, de acordo com Victor Kajibanga, reputados cientistas sociais estrangeiros, como:
René Pelissier, em “La Colonie du Minutaure. Nationalismes et revoltes en Angola (1926-1961)” e em “Le Naufrage de caravelles – Etudes sur la fin de l’empire portugais (1961-1975)”; Gerald J. Bender, em “Angola sob o Domínio Português – Mito e Realidade”; Charles Boxer em “Race relations in the portuguese colonial empire, 1415-1825” Amílcar Cabral, no prefácio do livro “A libertação da Guiné” de Basil Davidson; Roger Bastide em “Lusotropicology, race, nationalism, class protest and devolopment in Brazil and portuguese África”; Giuseppe Papagno em “Colonialismo e Feudalismo”; e Allen F. Isaacman e Barbara Isaacman “Mozambique during the colonial period”.
Dos estrangeiros, há também nesta matéria a destacar, segundo Victor Kajibanga, os seguintes investigadores portugueses: Cláudia Castelo, em “O modo português de estar no mundo. O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961)”; Valentim Alexandre, em “Le colonialisme portugais: realité et mythe”; Maria Carrilho, em “Case e catapecchie: il luso-tropicalismo di Gilberto Freyre”; Orlando Ribeiro em “A colonização de Angola e o seu fracasso”; Isabel Castro Henriques em “Percursos da Modernidade em Angola. Dinâmicas comerciais e transformações sociais do século XIX”; e Pires Laranjeira em “Literatura, Cânone e Poder Político”.
Em relação a Mário António, acrescenta Kajibanga, que o mesmo definia o luso-tropicalismo e a crioulidade com alguma “ambiguidade e insegurança” já que, numa entrevista concedida a Michel Laban (um francês estudioso de literaturas africanas), igualava o luso-tropicalismo às práticas de alguns angolanos, quando festejam o Natal: “Com bacalhau”, “Com figos”, “amêndoas”, “nozes”, “com castanhas”. Para além deste aspecto, “chega mesmo a chamar essa prática como um exemplo satisfatório de luso-tropicalismo.” Todavia, mais tarde, Mário António, na sua tese de doutoramento – “A Formação da Literatura Angolana (1851-1950)” – defendida, em 1985, na Universidade Nova de Lisboa, acabou por reconhecer o carácter polémico do conceito de crioulidade, que, mesmo em alguns países sul-americanos, é, hoje, um conceito em desuso e, em sua substituição, se propõe o de “antilhanidade”.
Num texto não menos polémico intitulado “Critique Afrocentrique de l’Elogie de la Créolité”, inserido em “Penser la Creólité”, a professora da Temple University em Filadélfia (EUA), Ama Mazama, nascida em Guadalupe, apela à denúncia da crioulidade pelas seguintes três razões fundamentais: “pour la facture fondamentalment eurocentrique; pour la légèreté de son approche de la réalité sociopolitique caribénne; pour ses postulats socioantropologiques au fondements incertains.” (Pela sua factura fundamentalmente eurocêntrica, pela ligeireza da abordagem que faz da realidade caribense, pelos seus fundamentos postulados sócio-antropológicos incertos). Amin Maalouf, um franco-libanês que foi chefe de redacção da revista Jeune Afrique e mais tarde editorialista dessa mesma revista, no seu livro “As Identidades Assassinas”, afirma que “a identidade não é algo que nos seja entregue na sua forma inteira e definitiva; ela constrói-se e transforma-se ao longo da nossa existência”.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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