Opinião

Ainda a “maka” na UEA

Isaquiel Cori

A União dos Escritores Angolanos (UEA), primeira organização da sociedade civil, criada um mês depois da proclamação da Independência, vive mais um capítulo da sua longa história de autodesmoralização pelo silêncio. E de cumplicidade umbilical com os poderes políticos instituídos.


Desta vez o verniz estalou com a morte de Zacarias Mussambo, guarda da UEA, na esquadra da Polícia Nacional no bairro Cassequel. Mesmo antes de se saberem as causas da morte, atendendo à circunstância de ele ter sido detido quando estava de serviço e de a sua morte ter ocorrido sob custódia da Polícia,  liminar e imediatamente, a direcção da UEA tinha a obrigação de emitir um comunicado  a condenar o assassinato e a exigir explicações à Polícia Nacional. Conselhos nesse sentido não faltaram.
Agora que os factos são mais claros e inequívocos, com o laudo da autópsia a apontar para “morte por traumatismo craniano com objectos contundentes e choques eléctricos”, em suma, por tortura, a posição da UEA é não só insustentável como configura uma   cumplicidade por acobertamento dos actos homicidas dos agentes da Polícia.
Na sequência das últimas informações, o escritor José Luís Mendonça, membro da UEA, lançou uma campanha para, no âmbito estatutário, a convocatória de uma assembleia geral extraordinária da organização. O ponto 1 da proposta de agenda é: “Posição da UEA face à grave violação do direito humano à vida cometido pela Polícia da Esquadra do Cassequel contra Zacarias Mussango, guarda da nossa associação.”
Enquanto membro da União dos Escritores Angolanos estou perfeitamente de acordo com a convocatória da assembleia geral extraordinária. Mas sou de opinião que essa assembleia deve ter um ponto único: “Demissão dos actuais corpos sociais e convocatória de novas eleições.”
A tomada de posição pública da UEA ante um facto como a morte de Zacarias Mussango devia resultar de um acto de gestão normal da actual direcção. Quando essa tomada de posição tem de ser remetida especificamente a uma assembleia geral extraordinária, está a ser passado um atestado de incompetência a essa direcção, o que só pode levar a dois cenários: ou o secretário-geral, pela sua honra e dignidade, vai já autodemissionário e a pleitear confiança à assembleia geral de membros ou esta o demite e consequentemente são convocadas novas eleições.
Agostinho Neto, o poeta-presidente fundador da UEA que   muito mais do que uma mera instituição literária a concebia como um baluarte da recolha, estudo e preservação da cultura nacional, hoje não a reconheceria.
A sociedade angolana está a mudar vertiginosamente e a UEA parece imobilizada no tempo. Ao que sabemos, além de assegurar algumas condições materiais à família do guarda assassinado, a actual direcção pediu esclarecimentos ao mais alto nível à Polícia Nacional. Tudo institucionalmente. Burocraticamente. Amigavelmente. (Entre compadres?). Quando o que se esperava dela era que reagisse publicamente com indignação e solidariedade à família da vítima.
Sobre a UEA recaem fortes interesses político-partidários e até económicos e imobiliários, mas isso não justifica que ela como instituição se esqueça do seu papel fundamental de “dar voz a quem não a tem” e de posicionar-se solidariamente em favor dos mais desvalidos da sorte.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia