Opinião

Ainda o mau uso das redes sociais

Victor Carvalho |

Com o devido respeito aos nossos leitores, voltamos a insistir na questão que se prende com o mau uso das redes sociais e com as implicações que daí advêm para o direito à informação que está devidamente respaldado na constituição de quase todos os países, entendido como base fundamental para a existência de um Estado de Direito.

Ao longo desta semana, com uma ligeira diferença de horas, o antigo Presidente Barack Obama, o Papa Francisco, a União Europeia e as Nações Unidas tornaram públicas posições nas quais manifestam as suas preocupações pelo uso que está a ser dado às redes sociais por parte de determinados grupos organizados ou por pessoas singulares.
Convém sublinhar, para esclarecer quem eventualmente se faz de desentendido, que não está minimamente em causa a enorme valia que a Internet trouxe ao mundo. Muito menos se trata de uma questão geracional, uma etiqueta que quem se julga mais esperto que os outros usa para mostrar a sua suposta superioridade em termos de domínio das novas tecnologias.
Como muito bem disse Barack Obama, numa entrevista concedida ao príncipe Harry e divulgada pela BBC, aquilo que está verdadeiramente em causa é o aproveitamento que muitos dos utilizadores da Internet fazem das redes sociais para manipular a opinião pública ou para a difusão de mentiras, calúnias e difamações, em benefício próprio ou para servir interesses de grupos ou organizações que se movimentam nos labirintos da obscuridade.
As Nações Unidas e a União Europeia vão mais longe que Barack Obama e sublinham que o problema do uso irresponsável das redes sociais ultrapassa a simples propagação das denominadas “fake news”, sublinhando que o grande problema reside no facto de começarem já a ser entendidas como plataformas de manipulação, apresentando “verdades absolutas” a partir das quais se podem facilmente fazer julgamentos públicos de carácter e de personalidade com base em “factos” fabricados por quem os propaga, com maior ou menor imaginação.
A Internet, e com ela as redes sociais, são uma relevante conquista do mundo moderno e sem a qual nada seria como é. Quando utilizada com responsabilidade é de uma importância vital para a democracia pois permite o acesso à informação de uma crescente camada da população mundial. Mas, a sociedade tem de ser defendida daqueles que a tentam manipular recorrendo às fragilidades regulamentares ainda existentes.
Apenas a título de exemplo, ocorreram recentemente entre nós dois casos que ilustram bem o modo como o uso irresponsável das redes sociais baralhou a sociedade angolana ao ponto de levar algumas pessoas a tecerem comentários em cima de mentiras que lhes foram apresentadas como “verdades absolutas”.
O primeiro caso ocorreu como a divulgação de informações que davam conta da escolha do antigo primeiro-ministro Marcolino Moco para o cargo de Procurador-Geral da República. Esta inverdade, divulgada anonimamente nas redes sociais e depois apimentada com numerosos comentários, foi tomada como uma “verdade absoluta” sendo apenas desmascarada quando o Presidente João Lourenço deu posse no cargo a uma outra personalidade.
O outro caso, acaba mesmo agora de acontecer com as peripécias em redor do nosso Angosat 1, onde em determinadas redes sociais as inverdades propagadas por alguma imprensa internacional tiveram mais aceitação do que a verdade revelada pelas autoridades angolanas.
É evidente a urgência da criação internacional e nacional de mecanismos legais e judiciais que possam desmascarar e punir todos aqueles que fazem um uso irresponsável das redes sociais, até para torná-las mais fidedignas, de modo a que melhor possam servir quem as utiliza para obter um melhor conhecimento.
Não se trata de uma luta para cercear a liberdade de informar e de ser informado, mas sim para combater a irresponsável liberdade que alguns agora têm para produzir, conscientemente, uma falsa informação. Estar contra isto é o mesmo que pactuar com a manipulação que actualmente pulula nalgumas redes sociais através do uso abusivo dos benefícios da Internet.

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