Opinião

Ainda sobre o congresso dos “camaradas”

Carlos Calongo

Em termos de comando da audiência jornalística do último fim-de-semana a realização do VIº Congresso Extraordinário do MPLA rivalizou, de certo modo, com o jogo em que os Palancas Negras, na corrida para o CAN de 2019, venceram a similar do Botswana, abrindo boas perspectivas para um possível apuramento à festa maior do futebol do continente africano.

Apesar da conhecida e envolvente paixão que o mundo do futebol detêm, do referido jogo, talvez, retira-se como nota considerável, a presença do público que esteve em bom plano em termos numérico, coisa que não se observava há já algum tempo, reflexo do notório divórcio entre os adeptos e os campos de futebol.
E, oxalá, tenha sido mesmo o fim-de-semana de inversão do hábito e que, doravante, os recintos desportivos voltam a conhecer enchentes que reflectem o prazer dos angolanos pelo futebol e a cultura de assistir ao vivo e a cores, nem que sejam apenas os da Selecção Nacional, enquanto equipa comum.
Sendo ou não possível, isto, no campo desportivo, no campo político-social, é uma verdade insofismável que o sábado, 8 de Setembro, para lá de um dia comum, entra para a história dos militantes do MPLA e por arrasto de todos os angolanos, pelas incidências do VIº Congresso dos camaradas marcado, dentre outros aspectos, pelo termo “roptura” que bem serve para, numa só palavra, qualificar o conclave dos “emempelistas”. 
Num espaço de pouco mais de um ano, contados da ascensão de João Lourenço ao cargo de Presidente da República, o MPLA, doou-se a abrir (mais) uma nova era no seu percurso, num acto de elevada coragem cujas marcas ficarão, de forma indelével, na vida de certas pessoas, por razões óbvias, - e não nos peçam para trocar isso em miúdos, pois pretendemos que cada um interprete à sua maneira o sentido e alcance da referência.
Aceite como o congresso da roptura, a reunião teve, igualmente, o pendor de resgatar capítulos importantes da história do MPLA, sobretudo em relação a liderança que, para o consumo público e oficial, tem João Lourenço, como  o quinto presidente do partido, a considerar o reavivamento das memórias de Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade, que antecederam Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos.
Num desapaixonado exercício reflexivo, entre as várias conclusões à que nos propusemos, uma delas vai no sentido de que, caso ainda haviam dúvidas quanto ao rumo a dar ao partido e por inerência, às acções do executivo, elas foram dissipadas no congresso do fim - de - semana, que decidiu pela “reforma” de certos militantes até então tidos como “pesos pesados” entre os camaradas.
No extremo contrário, a cooptação de caras novas, entre aspas, à cargos de elevada responsabilidade nos órgãos de decisão do partido, - Vice-presidência e do Bureau Político, pode ser entendida como um corte com as práticas e vícios nada abonatórios para a imagem do Movimento Popular de Libertação de Angola.
Com alguma justiça poderão ser questionadas as mudanças no MPLA, e delas advirem respostas com todas as fundamentações possíveis, mas elas nunca serão tão reais se não se compreender que João Lourenço e o MPLA dispõem, a cada dia que passa, de menos tempo para tomar medidas que se alinham com as acções constantes dos programas eleitoral e de governação, e assim (re) conquistar a confiança do eleitorado, pensando já na manutenção do poder, no pelito de 2022.
Considerando como “os males a corrigir e não só, mas sobretudo a combater, a corrupção, o nepotismo, a bajulação e a impunidade, que se implantaram no nosso país nos últimos anos e que muitos danos causaram à nossa economia”, muito facilmente pode-se concluir que a nova estrutura da cúpula directiva do MPLA, foi montada com o pensamento de afastamento com máculas que afecta(ra)m  a confiança dos investidores.
E pelo estado actual da economia angolana que se pretende liberta da dependência do petróleo, bem como a urgência em resgatar a confiança do partido enquanto suporte do poder executivo, para um primeiro momento, as decisões produzidas no Congresso em referência, merecem a nossa nota positiva, e espera que tudo que virá se reflecte no bem estar económico e social dos cidadãos sem distinção pelas suas opções políticas e outras.

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