Opinião

Alcoolismo

Fragata de Morais

Há uma lenda árabe, que nos conta que, um dia, o demónio visitou um homem e disse-lhe: “Fui enviado para revelar-te o esconderijo de um tesouro, sob a condição que faças uma das três coisas: matar o teu servente, bater na tua mulher ou beber esta garrafa de vinho.”


“Deixa-me pensar”, disse o homem. “Matar meu servente, que me é leal, é impossível... Bater na minha mulher, é ridículo. Beberei pois a garrafa de vinho.”
Assim, sorveu ele todo o vinho e, tendo ficado ébrio, bateu na mulher e matou o servente que procurava defendê-la.
Numa sociedade como a nossa, pouco dada e chegada a moralismos e num mundo onde cada vez mais a juventude toma como sinónimo de ser-se adulto alienado o uso indiscriminado do álcool, a narração desta lenda, parecerá mais a uma piada de gosto questionável, do que a tentativa de transmitir as consequências dos perigos duma droga. Aliás, que não é considerada como tal e faz parte dos livros sagrados, em muitas maneiras e usos. O próprio Cristo achou o vinho matéria augusta para transformá-lo no Seu próprio sangue. Daí, poder-se inferir que amar o vinho é uma acção sagrada.
O problema fundamental com o alcoolismo, é que o vício expande-se de forma e maneira não evidentes. Como o cancro, penetra sub-reptíciamente, porque a maior parte das pessoas sente que está em controle de si e da situação, um copo não causando mal algum. A questão é quando o primeiro copo começa às dez da manhã, como um aperitivo inócuo para abrir o apetite do almoço, seguido de mais uns tantos durante o referido almoço, para, à tardinha, languidamente saborear-se o whisky social, ou o gin tónico da amizade, ou varrer de rajada as múltiplas garrafas de cerveja do convívio camarada, sem esquecer, no prenuncio do deitar, o copo da porta ou a saídeira.
Ninguém quer ver, que o vício alastra-se pelo corpo e pela mente de maneira perniciosa até que, anos depois, quando tem que chegar o terrível momento do diagnóstico, é, na maior parte das vezes, tarde e em má hora. A dependência está criada e enquistada, com as nefastas consequências que são a destruição do ego, da família, do trabalho e do mundo que tudo isso engloba.
Acho, que o Governo deveria elaborar legislação que impedisse a publicitação do uso das bebidas alcoólicas e do tabagismo. Para esses, o IVA deveria ser de luxo e não o normal.
Por tudo quanto é canto, observamos as consequências do alcoolismo. Nos lares, da mais variada forma. Nas estradas. Nos crimes passionais e não só, nas festas, nas escolas, nas praias e em quase todos os sítios. Temos uma juventude orientada para o copo, e não é o de água ou o de leite. Bebe-se, cada vez mais jovem. Qualquer menor entra em qualquer sítio e adquire qualquer tipo de bebida que deseja. Vejo, no que restou das praias livres da Ilha, crianças com pouco mais de doze, treze anos, ingurgitando cerveja após cerveja. Já vi gente morrer, porque se atirou ao mar bêbada.
Nos manuais sobre civismo que se elaboram e nos programas da rádio e da televisão, não se deve unicamente conclamar para que a garrafa não seja atirada ou deitada para o chão. Deve-se alertar para os perigos das bebidas, para o terrível mal que causam a todos, incluindo ao Estado. Sei que é uma preocupação constante das Igrejas, mas também deveria ser do Ministério da Saúde, dos legisladores, e não só. Não poderemos construir uma Pátria, com uma juventude, em termos de saúde física e mental, fragilizada e ameaçada pelo álcool.

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