Opinião

Aljube, um palácio contra a liberdade que virou museu

Manuel Rui

A cadeia do Aljube foi encerrada em julho/Agosto de 1965 depois de sucessivos protestos, principalmente, internacionais. Também, a polícia politica portuguesa, a Pide, reclamava pela insuficiência dos meios, nomeadamente celas, a perigosa localização do edifício e a necessidade de deslocar os detidos para a sede da Pide na que ficou célebre avenida António Cardoso.

O Aljube, é referido desde finais do século I antes de Cristo, na renovação da cidade de Olisipo (Lisboa) a partir da colina do Castelo de S. Jorge. O edifício foi sucessivamente transformado e quase sempre foi prisão, cumprindo, aliás a sua origem etimológica árabe em que Al-Jubb significa poço sem água, cisterna, masmorra, prisão.
Uma das vezes que passei por Lisboa requeri e foi-me passada uma certidão de que consta …”Manuel Rui Alves Monteiro, foi detido na sua residência em Coimbra, pela PIDE/DGS em 23 de Março de 1963, por exercer actividades contra a segurança do Estado, tendo recolhido à cadeia do Aljube, conforme consta da Ordem de Serviço nº 65.”
Nesse dia, a ramona (carro celular com grades) já trazia da cidade do Porto a Natércia, grávida de oito meses e em Coimbra, para além de mim foram também Jaime Martinho, António Faria, Espírito Santo, José Luís Cardoso e Orlando Rodrigues. Beto Traça já estava preso.
Para além da tortura de sono na sede da Pide que me causou insónia incurável até hoje, estive de castigo na célebre cela 13 que tinha a parede toda marcada a sangue, com as unhas ou tinta de esferográfica espremida. Tinha uma tábua chamada bailique que se baixava para dormir e tinha que se levantar e prender com um pedaço de madeira para o preso dar uns passos.
Se a cadeia durasse até ao 25 de Abril talvez se tivesse recuperado a sua real fisionomia de desumanidade mas, assim, pelo menos, fizeram módulos idênticos às celas, aos curros que eu pensava ser só a cela 13 quando afinal eram 14.
Não vou contar aqui os padecimentos no cárcere mas, saliento que escrevi poemas em papel de prata de cigarro que saíram cá para fora por dentro do forro do sobretudo do Cardoso (que chegou a ser diretor deste jornal). Com esses poemas foi publicado, clandestinamente, o livro “Poesia sem Notícias,” e um dos poemas chama-se museu. As pessoas perguntam-me se eu alguma vez pensei na cadeia que aquilo um dia ia virar museu. Nada! Mera casualidade.
Mas eu estou a escrever estas linhas pelo amor à palavra e à força que o texto poético, como outras artes podem definir as personalidades e as convicções. Em Agosto de 1960, Agostinho Neto, preso no Aljube, escreveu o poema “O Içar da Bandeira.”
Trata-se de uma verdadeira profecia daquele que também escreveu “eu não espero sou aquele por quem se espera.” Não sei como Agostinho Neto conseguiu trazer este poema cá para fora porque se fosse apanhado quiçá seria torturado até à morte como tantos que morreram nas torturas.
O Salazarismo não aceitou a ideia da libertação das colónias nem por apelo do Papa. Antes pelo contrário, o seu ministro do Ultramar, imediatamente a seguir ao início da luta armada, foi a Angola “inaugurar” a psico-social e deu dois valores a cada estudante. Lavrou um decreto para que se erguesse um “campo de trabalho” no Tarrafal em Cabo Verde com polícias a recrutar em Angola e a despesa a ser suportada também por Angola como, aliás, toda a despesa da guerra colonial. Adriano Moreira ainda é vivo, sábio e de intervenção política. Nenhum regime fascista, de Mussolini ou Franco, quiça mesmo Hitler, tiveram tantos campos de concentração como o regime de Salazar. Eram presídios políticos do norte de Portugal a Timor passando pelos Açores e Madeira. Só no nosso país eram dezanove a saber: Colónia do Bié-Capolo| Campo de Porto Alexandre| Fortaleza de S. Pedro da Barra (Luanda)| Cadeia Comarcã de Luanda| Cadeia de S. Paulo (Luanda)| Cadeia de Vila Clotilde| Cadeia do Cacuaco| Campo da Bahia dos Tigres| Campo da Foz do Cunene| Campo de Iona| Campo do Missombo, Cuando-Cubango| Campo de Moçâmedes| Campo de S. Nicolau| Campo de Virei| Campo do Ambrizete| Casa de Reclusão Militar (Luanda)| Colónia Penal do Bié| Forte de Quibaxe| Vila Nova de Seles.
Não há futuro sem memória. E o poema “O içar da bandeira” vou com uns amigos dizê-lo defronte de um dos curros idênticos àquele onde foi escrita a profecia. É bom a juventude ler este poema e os professores ensinarem o contexto em que o mesmo foi escrito.

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