Opinião

Amigos para sempre

Fragata de Morais

A amizade, quando sincera, desinteressada e duradoura, é uma coisa linda e que só faz bem, passe o desentendimento ocasional.

Na maior parte das vezes, é bem-vinda para os outros, fortalece a confiança no semelhante, descarboniza o motor, como diria o meu amigo Manbeto, mecânico de longa data. A amizade, quando forte, não sucumbe aos abanões das vicissitudes, das intrigas ou do afastamento. Ela perdura, é farol que se vê ao longe.
Há amizades assim, que não se contentam em ser edificadas em doses homeopáticas, os seus arquitectos traçaram planos para o equivalente a um arranha-céus de oitenta andares de amizade, edifício imponente.
Conheci dois amigos assim, sempre juntos. Se um tivesse sido mulher, aquele casamento seria eternamente abençoado, tal a dedicação mútua.
Segundo o registo histórico oral no bairro, nasceram quase no mesmo dia do mesmo ano, filhos de duas casas contíguas. Engatinharam juntos, comeram as mesmas caganitas dos ratos no mesmo buraco onde as encontraram, frequentaram o ensino primário como companheiros de carteira, jogaram no mesmo time com a mesma bola de trapos, namoraram as mesmas namoradas no liceu e assim viveram a vida toda, um ao lado do outro, na mesma rua, casados com duas irmãs, também da mesma rua.
E sabem o que solidificou desde cedo essa amizade? O futebol. Se houvesse, naquela altura, uma enciclopédia de futebol seriam eles. Conheciam toda a história do desporto rei, desde a sua invenção na Inglaterra, segundo uns. Na Mongólia, onde o Gengis Khan usara as cabeças do inimigo para grandes desafios nas estepes ou no deserto, segundo outros.
Jogaram juntos em todas as equipes da escola, do liceu, do bairro, e participaram de todos os campeonatos que organizaram e que foram organizados. Eram conhecidos como a dupla do mata e esfola, já que era isso que acontecia. Quando um caía sobre o adversário para o esfolar, logo o outro aparecia para complementar o estrago, para matar. Só no primeiro campeonato escolar, já no liceu, quebraram mais canelas na primeira volta, do que o Justino Fernandes em todos os seus desafios. E naquelas épocas ainda não tinha sido elaborado o conceito de “futebol viril”, para justificar os amasses e as luxações infligidas sobre os outros.
Quando oiço há anos o Mateus Gonçalves da LAC, a perorar ou a xinguilar sobre o futebol e os seus (do futebol) ídolos, sinto uma imensa pena. Será que nunca ouviu falar nesses dois, nas suas proezas, na sua eterna amizade ? Edificada sobre milhões de bolas de futebol, a começar com as de meia, depois as de borracha, seguidas daquelas que eram de couro e se atavam como se ataca um sapato? Porque nunca os mencionou? Algum desafecto bairro-clubista?
Quando Deus chamou um deles, o outro logo ficou a estiolar na sua solidão de órfão. Nada mais o animava, todos diziam que em breve também ele se iria juntar ao amigo. Amizade tão longa, tão bonita e tão forte, não perduraria por muito mais tempo só com um dos integrantes. Mas foi vivendo. Naquele ar apagado, olhos sempre no vago, ao longe, e com os lábios formando o ocasional sorriso, talvez no momento onírico em que lá se ia mais uma canela adversária.
O momento chegado, ao cair da tarde, chamou um dos netos preferidos e informou-o que se preparassem, não iria durar muito mais.
“Que é isso, avô? O senhor ainda tem muitos anos de vida.”
“A minha hora chegou, vai já avisando todos, não quero confusões, e no meu caixão deve ir aquela bola de couro com atacador, a que tem uma fotografia do Peyroteu colada.”
“Mas avô, lá no céu nem há campos de futebol!...” disse o neto, para o alentar.
“Não digas disparates, o que sabes tu? Não só há campos, como grandes campeonatos entre os católicos e os outros, os protestantes.”
“Mas como é que o avô tem a certeza? Quem lho contou?”
“O meu velho amigo de sempre. Ontem apareceu-me num sonho e contou-me isso precisamente. Grandes e renhidos campeonatos!... E mais, informou-me que estou escalado para jogar no próximo domingo.”
O neto olhou para ele e, sem mais palavras, foi informar a família.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia