Opinião

Angola não pode ser um absurdistão

Adebayo Vunge

Já não é novidade para ninguém que as redes sociais são ferramentas importantes, incontornáveis mesmo, para períodos acirradamente eleitorais, facilitando sobretudo aqueles candidatos ou partidos políticos com pouco tempo e espaço na midia tradicional, sobretudo em rádios e TVs.

Mas do ponto de vista de calendário político, é também muito questionável aquilo que se pode considerar de período eleitoral uma vez que o calendário político, na maioria dos Estados democráticos, é preenchido constantemente por processos eleitorais de vária natureza, presidencial, legislativa ou gerais, autárquicas ou municipais, conforme a definição de cada um dos países. O que é facto é que, ao longo do ano, há uma constante disputa política.
Como não poderia deixar de ser, em Angola não é diferente. A disputa política, note-se, vai subindo de tom em antecâmara aos processos que poderão surgir. E isso explica o facto das redes sociais estarem ultimamente a fervilhar com mensagens e tags, tendo como alvo principal o poder político, sobretudo o poder executivo.
Um dos fenómenos mais recentes tem a ver com um hashtag que se tornou viral cujo conteúdo é #em2022 vais gostar. A expressão de autoria desconhecida, pelo menos para mim, surgiu nas redes sociais nos últimos quinze dias sensivelmente, utilizada contra e em prol do Presidente João Lourenço.
Nesta senda, a Vice-Presidente do MPLA, Luísa Damião, fez um excelente exercício ao transformar aquela mensagem numa espécie de campanha de apoio ao Presidente da República, com mensagens de incentivo, que estiveram a circular ao longo da última semana nas mesmas redes sociais, exaltando as conquistas desse mandato do Titular do Poder Executivo.
Esse movimento fez-me recordar a questão que João de Almeida colocou ao Presidente da República na sua primeira conferência de imprensa. O jornalista questionou João Lourenço se este estaria a gostar de ser o nosso Presidente. E não há dúvidas de que a última palavra é do eleitorado. Para já, sendo Presidente, é óbvio que o Povo gostou e por isso o elegeu. Até 2022, “deixem-no trabalhar” - que é como quem diz, governar, resolver os problemas que andaram acumulados na gaveta de quem pensou ser DDT - parafraseando o célebre desabafo do então Primeiro-ministro de Portugal, Aníbal Cavaco Silva.
Ora, como se pode notar, não podemos hoje estar na política, na governação e mesmo na oposição, estando indiferente ao impacto do Twitter e Facebook, do Instagram e até do WhatsApp, independentemente das questões de acesso que possam ser levantadas face à condição social e económica da população. As redes sociais são hoje um palco incontornável para quem faz e está na política. O combate será então cada vez mais acirrado e é importante projectar coisas, ter realizações, mostrar ao povo e convencer os eleitores. Note-se que as falhas e os erros são inerentes do fazer. Pior do que isso é o imobilismo. Melhor do que isso é a correcção.
Mudando radicalmente de assunto… há pouco mais de uma semana fomos surpreendidos com uma decisão dos órgãos judiciais habilitando um cidadão, por sinal oficial da Forças Armadas Angolanas, envolvido numa autêntica “trapalhada” com a venda criminosa de moradias da centralidade Zango 5000. Ou seja, ao mesmo tempo que é invasor de uma moradia no Zango é também comparsa da venda ilegal de moradias do Estado. Foi absolvido e premiado.
Essa postura do Tribunal é extremamente lesiva do Estado de Direito. Por um lado, legalizou a invasão de casas desde que sejam feitas por pessoas que tenham “prestado serviços relevantes à Pátria”.
Se a nossa justiça vai so-frendo com vários episódios que põem em causa a sua credibilidade interna e internacional, o perigo maior aqui reside na possibilidade de se fazer jurisprudência com essa sentença. Só esperamos que tenha havido recurso às instanciais judiciais superiores para anulação desse absurdo e reposição da legalidade. Para além de tudo, este é um duro golpe ao princípio da propriedade privada.
Sou forçado a concordar com Rafael Marques quando diz repetidas vezes que o combate à corrupção pode esbarrar no tipo de justiça que temos. Ocorre-me ainda o que o jornalista Raimundo Salvador chama de “absurdistão”. Angola não pode ser um absurdistão.

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