Opinião

Angola, país multilingue

João Melo*

Como todos sabemos, Angola é um país multilingue. Tal como muitos outros, eu também defendo que, quanto mais línguas sabemos, melhor. Para mim, portanto, o multilinguismo é uma coisa boa. Mas não basta reconhecê-lo. São necessárias, quanto a mim, políticas e acções que tornem o multilinguismo efectivo e produtivo.

O primeiro passo é colocar em pé de igualdade todas as línguas faladas comummente num determinado país, por serem sua pertença, originária ou historicamente adquirida. Por isso defendo, como escrevi nos meus dois últimos artigos nesta coluna, que o português deve ser igualmente considerado uma língua nacional angolana.
Não reivindico, entretanto, qualquer originalidade, quando assumo essa posição. A mesma coisa foi dita pela primeira vez pelo antigo presidente José Eduardo dos Santos em 2006, quando falava no Colóquio Internacional de Cultura, em Luanda. Essa definição precisa de ser assumida tranquila e descomplexadamente por todos, tal como, a partir de um tubérculo originário da América do Sul (a mandioca), fizemos do funje de bombó um dos nossos pratos nacionais.
Alguns amigos confundem “nacionalidade” com “origem” e, por isso, relutam em aceitar esse facto histórico. Relembro, pois, que a nacionalidade pode ser “originária” ou “adquirida”. O que se passou, historicamente, com a língua portuguesa é que a mesma foi apropriada e nacionalizada por outros povos, passando, assim, a ser também sua pertença, com todos os direitos daí decorrentes. Para usar a metáfora de Luandino, a língua portuguesa constitui um “troféu de guerra” dos povos outrora colonizados por Portugal.
Outros mostram-se chocados com a afirmação de que, em termos de origem, a maioria das línguas bantas faladas em Angola não é exclusivamente nacional (é transnacional) e, sobretudo, com a afirmação de que os portugueses chegaram ao que é hoje o território angolano antes de alguns grupos bantus. A esses, recordo em primeiro lugar que, antes da chegada dos bantus, já os khoi e os san o habitavam (eles próprios originários de outras paragens); e, em segundo lugar, aconselho-os a estudarem a história das migrações bantas, para aprenderem que alguns grupos que hoje fazem parte da população angolana chegaram ao território nacional apenas no século XIX.
Além de colocar em pé de igualdade, em termos de pertença, as várias línguas usadas comummente pelos angolanos (definindo todas elas como “nacionais”), o segundo passo, num país multilingue, como é o caso do nosso, é adoptar políticas de colaboração e harmonização linguística científicas, racionais, lógicas e pragmáticas. Não sendo eu um especialista, atrevo-me a indicar três planos onde tal cooperação e harmonização julgo ser imperiosa: alfabeto ortográfico; regras de importação linguística mútua; e políticas de ensino linguístico.
A primeira questão, portanto, é: que alfabeto ou alfabetos ortográficos adoptar, num país multilingue, para as diferentes línguas utilizadas pelos seus cidadãos? A minha opinião é que, num país multilingue, as diferentes línguas existentes deveriam utilizar o mesmo alfabeto ortográfico, justamente para facilitar o aprendizado de todas elas e, assim, promover o multilinguismo.
Duas perguntas, a propósito: por que razão há vários alfabetos ortográficos para as principais línguas angolanas de origem africana, se todas são línguas bantas? E, sendo os alfabetos das línguas bantas tão ocidentais, em termos de origem, como o da língua portuguesa (tais línguas eram ágrafas), o facto de termos de usar uma grafia para o português e outra(s) para as línguas africanas “não complica o sistema”, para usar esta saborosa expressão popular?
A segunda questão tem a ver com a forma de redigir, em cada uma das línguas, os termos importados das demais. Como se sabe, as várias línguas angolanas influenciam-se mutuamente há séculos, desde logo no plano lexical, o que acontece quer entre o português e as línguas bantas quer entre estas últimas. Como grafar, pois, as palavras importadas?
A minha posição é que, salvo os nomes próprios e outras excepções pontuais, as palavras importadas devem, sempre que possível, ser ajustadas (não só fonética, mas graficamente) pelas línguas que as importarem, como, aliás, é tendência universal. Assim, e por exemplo, as palavras de origem africana, se usadas no contexto da língua portuguesa, deverão ser aportuguesadas e vice-versa. Basta escutar a actual campanha em línguas angolanas de origem africana acerca da Covid-19 para saber que é isso, precisamente, o que está a ser feito com palavras que elas não possuíam (“álcool gel” e outras).
Por fim, a terceira questão é como ensinar as várias línguas existentes, por definição, num país multilingue. Isso tem a ver com algumas questões de base, como o estatuto, número de falantes, alcance geográfico e papel político-administrativo de cada uma delas.
No caso de Angola, defendo, pessoalmente, que a língua portuguesa, que já é o idioma mais falado pela população, deve ser ensinada a nível nacional, pelas seguintes razões: em termos de alcance, é a única língua verdadeiramente nacional do país; política e administrativamente, é a língua da unidade; é a primeira língua de comunicação internacional e de acesso ao conhecimento científico dos angolanos.
As línguas angolanas de origem africana devem ser ensinadas regionalmente, de acordo com a sua origem. Em alguns casos, como nas áreas rurais, a alfabetização deverá, inclusive, ser feita na língua local, pois está provado que isso facilita a aprendizagem das crianças. Certas vozes vão mais longe e defendem que todo o ensino deveria ser feito, nas diferentes regiões, na língua africana local. O efeito centrífugo de uma opção desse tipo dispensa – acredito – maiores elaborações.
Uma nota final para lembrar que o ensino, quer do português quer das línguas angolanas de origem africana, deve ser feito rigorosamente de acordo com a norma de cada uma delas. É que, para alguns, a língua portuguesa deveria ser ensinada em Angola conforme ela se fala nas ruas, confundindo isso com uma possível variante angolana do idioma. Erro crasso. Outros defendem ardorosamente as línguas africanas, pois, para eles, “português é língua do colono”, mas a verdade é que também não dominam com propriedade as referidas línguas. Tais confusões não têm nada a ver com o multilinguismo.

*Jornalista e escritor

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