Opinião

Angola mais solidária no ano que vai entrar

Luciano Rocha |

Mais um ano está prestes a findar, outro a começar, é o ciclo repetitivo de séculos, com a cadência monótona e vazia de conteúdo da frase “boas saídas, melhores entradas” pronunciada mecanicamente. 

O tempo dos “cartões de boas-festas” já lá vai. Para consolo de quem se sentia na obrigação de os enviar. E dos que os recebiam e tinham de responder. As coisas simplificaram-se com o surgimento das novas tecnologias. Perderam os serviços de Correios, ganharam as operadoras de telemóveis e da Internet. Mas, de resto, as palavras repetitivas, ditas como as crianças de outros cantavam a tabuada de frente para trás e vice-versa, mantêm-se. Sem que quem as pronuncia pense na maioria das vezes no que está a dizer. Mais preocupado com a festa que há-de assinalar o fim de um ano e o nascimento de outro. Seja farra de quintal, ceia dançante no hotel luxuoso, batida na discoteca. Muitos de nós não olhamos a gastos. Alguns dos felizardos que receberam o décimo terceiro mês hão-de derretê-lo antes de Janeiro aparecer. Em vestimentas, tratamentos de cabelos, unhas, rostos. Também com perfumes, birras de todas as marcas, vinhos portugueses, espumantes com várias origens. Igualmente com bidões e bidões de combustível para os geradores. Que “um dia não são dias”. Prestações das casas, kilapes na senhora dos saldos, nos tascos de beber e comer todo o ano, propinas e livros da escola dos filhos? Isso são outros mambos. Para resolver depois. “Se uma pessoa começa a pensar tudo ao mesmo tempo fica maluco”.
Nestas alturas também podem surgir “beneméritos”a manifestarem “amor ao próximo”. Com camiões abarrotar de “prendas” a distribuir em “lares de idosos” e de crianças órfãs ou abandonadas pelos que tinha a obrigação de as proteger. Dão com uma mão e recebem com a outra. Porque convidam jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão para mostrarem que os deserdados não estão esquecidos. Apenas durante os meses... sem Natal, nem passagem de ano!
Uns outros vão festejar o novo ano como se os ponteiros dos relógios fossem mágicos e ao deslocarem da meia-noite tornassem melhor a vida dos angolanos. Sem fazerem nada para isso. Em alguns casos bem pelo contrário.
A festa faz parte das nossas vidas e nós, os angolanos, sabemos vivê-la como poucos. Sem precisar de datas, nem motivos. Qualquer pretexto é bom. E se não houver, inventamos. Mas nada nos pode fazer esquecer as obrigações que temos enquanto filhos de um país que amamos.
Por isso desejo uma Angola mais solidária, com menos desigualdades, melhor ensino - a base de tudo - do primário ao universitário. Que consiga preparar jovens para o mundo do trabalho. Não enfatuados, sedentos de um canudo, sem preocupações do saber.
Dispostos a continuarem a aprender, até morrerem, na escola da vida. Sem medo de sujarem as mãos e com força para abanarem paus até os cágados desavergonhados, vestidos de penas, se estatelarem no chão. Também capazes de desmascarem e berridarem raposas feitas guardas de capoeira.
O caminho é longo, mas tem de ser percorrido. Para termos melhores profissionais em todos os sectores. Do ensino à carpintaria, da hotelaria à arquitectura, da pecuária à justiça, da agricultura à economia, da astronomia às engenharias.
Até lá, resta-nos o desejo de, em breve, ser intensificado o combate à corrupção. Que inclui outros dois monstros: nepotismo e tráfico de influências, quase sempre irmãos gémeos.
Também que o programa Água para Todos deixe de ser conjunto de intenções, faça jus ao nome e a electricidade não continue aos soluços. Para regozijo dos comerciantes de geradores e combustíveis.

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