Opinião

Antes que o petróleo acabe

Adriano Mixinge

Algo parecido terá acontecido na primeira metade do século passado, aquando das descobertas petrolíferas: quando “tipo do nada” surgem instituições, empresas ou personalidades estrangeiras a financiar o desenvolvimento de “qualquer coisa”, em Angola ou fora dos seus países de origem é porque têm certeza de que terão retorno.


O projecto foi apresentado ao público, na quinta-feira última, na Mediateca de Luanda: através do Procultura-Palops, a União Europeia disponibilizou cem mil euros para financiar projectos artísticos e culturais, em Angola, que serão geridos pela Aliança Francesa, em parceria com a rede de Institutos Culturais Europeus e, em visita a Angola, Angela Merkel teve tempo de ir visitar o Museu Nacional de Antropologia, que tem beneficiado da cooperação alemã.
Não é a primeira vez que instituições estrangeiras financiam projectos culturais em Angola ou de artistas, criadores e intelectuais angolanos, em qualquer parte do mundo: com financiamentos directos ou com bolsas de estudo, facilitando-lhes know how ou pondo experts à sua disposição, auxiliando na mobilidade ou contribuindo para as publicações, quer queiramos, quer não, estes financiamentos não têm um carácter neutro e desinteressado. Eles são um mecanismo de influência cultural dos mais subtis e, pela sua eficiência, também, dos mais sofisticados uma vez que são (quase) infalíveis.
No ano do quadragésimo quinto da proclamação da Independência do nosso país e três décadas depois da implantação da economia de mercado, em Angola, que, no entanto, deixou sempre nas margens as artes e a cultura, que fez delas o “parente pobre”, o sector “improdutivo” e ignorando completamente o que acontecia neste domínio, em todo mundo, acontece que, quando parecia que ia vislumbrar-se um novo paradigma digno dos tempos do “Melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, na prática vemos erigir-se outro que não temos certeza de que seja o mais apropriado.
Como é lógico, estes financiamentos de instituições estrangeiras permitirão, certamente, que os artistas, os colectivos, as associações e os empreendedores culturais concretizem os seus projectos, mas eles podem, desde já, ajudar a anular o que resta do orgulho, do respeito e da consideração que eles podem ter pelas instituições culturais angolanas muito frágeis, a precisar de serem modernizadas, porque ainda funcionam, maioritariamente, com os modelos dos anos 80 do século passado.
Na prática, o que está realmente a acontecer é que evocando a nova Lei de Mecenato ou ao papel que o novo tecido empresarial deve desempenhar para o desenvolvimento das artes e da cultura, através do ministério de tutela (e aqui a culpa não é, de certeza, dos titulares do mesmo), o Estado angolano parece mais tendente à retracção absoluta neste domínio (e também, por exemplo, no do desporto)do que decidido a enfrentar o assunto com agalhas e a optar por um modelo mais sensato que, quanto a mim, continua a ser o que permite potenciar o valor excepcional e inesgotável dos produtos artísticos e culturais como veículos de criação de riqueza.
Sendo o petróleo um recurso que muito provavelmente esgotar-se-á neste século, seguramente nos próximos 80 anos, nós já podemos dizer que as artes e a cultura em Angola surgiram muito antes das descobertas das jazidas, existiram durante o tempo em que elas foram exploradas e sobreviverão à economia do petróleo, são mais perenes. É, pois, tempo de fazermos com as artes e a cultura, em Angola, o mesmo (ou melhor, ainda) do que fizemos com a indústria dos hidrocarbonetos,\ garantindo tanto a sua reestruturação profunda quanto a sua autosustentabilidade.
A cultura não é, propriamente, “qualquer coisa”. Junto com as energias renováveis e a economia digital, as indústrias culturais e criativas terão, em finais do século XXI e adiante tanta (ou mais) importância que o petróleo teve no século passado. São uma espécie de “novo petróleo” das economias.
Entretanto, antes que o “ouro negro” acabe, urge financiar bem as artes e a cultura já, para que ocupem o lugar que lhes corresponde na economia do conhecimento, na construção de novos imaginários e da autoconsciência colectiva e, sobretudo, no orgulho da Nação que estamos a construir: este será o maior retorno que podemos ter.

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