Opinião

Aprendemos no confinamento a conviver com a nova realidade

Eduardo Magalhães |*

De todas as lições que aprendemos com a pandemia da Covid-19, uma é incontestável: as nossas vidas jamais serão como eram antes do alerta da OMS sobre o novo coronavírus.

O actual confinamento, vivido em Angola nesse período de excepção constitucional, deverá ser encerrado através de uma transição lenta e gradual à normalidade, mas a existência da pandemia continua a alertar a todos que o eventual levantamento do Estado de Emergência não representa o fim dos riscos da propagação da Covid-19.
De certo o Executivo vai manter a assistência aos cidadãos através da disponibilização das estruturas criadas, entre elas os centros de tratamento, hospitais de campanha, laboratórios de testagem, para além da disponibilização de equipamentos como os ventiladores e materiais de biossegurança. No entanto, a responsabilidade de prevenção continuará a ser de todos. Os procedimentos de prevenção para evitar o risco da propagação do vírus Covid-19 devem ser mantidos.
Aos poucos começaremos a sair do confinamento obrigatório. Angola é, sem falsa modéstia, um exemplo de sucesso. A determinação e disciplina do povo, somadas à coragem e capacidade do Executivo, que já prepara estratégias de desconfinamento para definir um plano através do qual serão feitas algumas opções sobre como e em que condições poderemos ir normalizando a vida nacional, são notas dignas do sentido de pragmatismo e prudência que as autoridades imprimem à navegação política nestes tempos de turbulência em que a pandemia da Covid-19 se veio associar às dificuldades económicas que já existiam.
E porque a vida não pode parar mas o contexto aconselha a cautelas, o desconfinamento significa que a abordagem para a retomada de algumas actividades, como aviação comercial, competições desportivas e o que será feito com as escolas, deverão ter indicações detalhadas no Plano sempre em função de cada momento, como sublinhou o ministro de Estado e Chefe da Casa Civil do Presidente da República na última conferência de imprensa, que serviu para apresentar as medidas concretas excepcionais e temporárias constantes do Decreto Presidencial nº 128/20 de 8 de Maio.
Hoje existe claramente uma melhor compreensão da dimensão do problema antes que houvesse um descontrolo.Tudo isso deve ser visto como positivo, pois reflecte uma sociedade madura e disciplinada e capaz de enfrentar os problemas com a devida lucidez.
Existem inúmeros cientistas de diferentes áreas de actuação que, no exercício da futurologia, afirmam que a actual pandemia está a acelerar as transformações que durariam décadas para que pudessem ser processadas. Desde o comportamento das pessoas, culminando com os modelos de produção, consumo e relacionamentos diversos. Há quem diga que o capitalismo predador foi exposto e que o papel do Estado hoje é visto com maior respeito entre os cidadãos.
A possibilidade do trabalho remoto, educação à distância, a notável qualidade ambiental adquirida nos rios, florestas, mares e qualidade do ar que respiramos em poucos meses também revelam que podemos reduzir o ritmo das nossas rotinas e rever os conceitos sobre qualidade de vida, consumo e entretenimento. Também as empresas e instituições financeiras devem perceber que precisam de ser mais responsáveis do ponto de vista social.
Aprendemos também com os exemplos de erros e acertos de outros países. Por isso, estejamos uma vez mais atentos aos movimentos daqueles que começam a sair à rua. É preciso muita atenção aos passos seguintes, pois ninguém conhece ao certo qual o tipo de terreno que estaremos a percorrer. Se durante o Estado de Emergência as pessoas provaram ser possível ficar em casa, sair apenas para necessidades imperiosas, como fazer as compras de alimentos e bens essenciais como os medicamentos e, para alguns, deslocar ao local de trabalho, devemos lembrar que este sacrifício salvou vidas.
Por isso, devemos reconhecer que o Estado de Emergência serve e serviu também para preparar o cidadão angolano para evitar uma situação de extrema gravidade e que, por isso, exigiu de todos a permanente disciplina e controlo psicológico para a mudança de vida imposta pela pandemia. Daí a necessidade de repetir que o regresso planificado às actividades jamais deverá ser compreendida como o retorno à fase anterior à pandemia.
A construção de um novo modo de vida pós-Estado de Emergência vai esbarrar também num cenário completamente adverso da economia mundial. No entanto, devemos lembrar que as actividades económicas de Angola ainda estão sustentadas, maioritariamente,na importação. Acelerar e redinamizar a produção nacional é o desafio que irá exigir de todos empenho, dedicação e trabalho.
Se é verdade que houve uma queda histórica na produção mundial do petróleo, mesmo no meio da pandemia há sinais de que o mercado está a reequilibrar-se, ainda que lentamente, à medida que os principais produtores cortam a oferta e o consumo se recupera do colapso histórico na procura devido ao novo CoronavÍrus. Angola deverá buscar o equilíbrio entre perdas e oportunidades para retomar o caminho de prosperidade para o qual o nosso país está vocacionado. Tudo isso com o que estamos a aprender com as medidas excepcionais, nomeadamente a suspensão, total ou parcial, de certos direitos fundamentais definidos na declaração do Estado de Emergência: cuidar de si é cuidar dos outros.

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