Opinião

Áreas-chave de uma educação para o desenvolvimento

Filipe Zau*

Face ao desaparecimento dos grandes ideólogos – já que perante o actual contexto da mundialização do capitalismo, hoje, na expressão de Alvin Toffer, apenas existe uma “teologia do mercado” – o pedagogo Paulo Freire considerava imperioso que, do ponto de vista educativo, o professor formasse adequadamente os seus estudantes, do ponto de vista técnico, como condição “sine qua non” para a sua adaptação e sobrevivência num mundo muito pouco solidário.

Segundo se pensa, o termo “Terceiro Mundo” foi pela primeira vez utilizado pelo demógrafo francês Alfred Sauvy que, tanto quanto se sabe, se inspirou no título da brochura do político gaulês Emmanuel J. Sieyès – «Qu’est-ce que cest le tiers état?» (1789) – ao pretender referenciar um número relevante de países e povos marginalizados no sistema internacional do pós-guerra. Hoje, estes países e povos, apenas denominados por países em desenvolvimento (já que a denominação países do Terceiro Mundo e países subdesenvolvidos caiu em desuso) foram caracterizados por Fourastié e Vimont como sendo países (ou simplesmente nações) cujos povos apresentam:
- Elevado índice de natalidade e de mortalidade, com baixa esperança de vida e um modus vivendi intuitivo, tradicionalista e sem iniciativa empresarial;
- Regem-se por estruturas políticas arcaicas, sem classe média e com forte discriminação das mulheres;
- Baixa escolarização e falta de recursos humanos, elevado desemprego e subemprego;
- Fraco índice de investimento, produtividade, autoconsumo, capacidade financeira, e poupança agrária;
- Dependentes do estrangeiro para onde exportam a maior parte das suas matérias-primas.
O sociólogo Hermano Carmo estabelece “áreas transversais” e “áreas específicas”, que devem proporcionar aprendizagens para uma educação para o desenvolvimento:
No campo da transversalidade e face a um mundo em constante mutação, cada cidadão terá que se adaptar à mudança e aprender a geri-la. Deverá aprender a ser autónomo sem ter de se insular no seu individualismo, já que qualquer pessoa, enquanto bio-psico-social, vive em comunidade e não de forma isolada. Face à democracia, terá que aprender competências comunicacionais indispensáveis ao exercício da mesma, adquirindo as necessárias competências de leitura, de escrita e de conversação (saber falar e saber ouvir). Terá que adquirir competências para o exercício da democracia representativa, aprendendo a escolher, a respeitar as suas escolhas e as dos outros e a utilizar mecanismos democráticos para a substituição dos seus representantes. Terá ainda que adquirir competências para o exercício da democracia participativa (preparar, tomar e executar decisões). Como cidadão, terá que aprender a ser solidário ao nível individual (solidário para com as crianças, adolescentes, adultos e idosos que integram as gerações vivas) e solidário ao nível familiar, organizacional, comunitário, nacional e mundial. Terá ainda que ser solidário no tempo, quer em relação às gerações futuras (sendo solidário para com os netos, como uma forma de garantir o desenvolvimento sustentado), quer em relação às gerações passadas (contribuindo para a defesa do património e assumido a história em todos os seus aspectos positivos e negativos em solidariedade com os seus antepassados).
No campo da especificidade deverá aprender a viver com qualidade, protegendo o ambiente como património comum da humanidade actual e futura. Face à população deverá ser educado para assumir uma paternidade e maternidade responsáveis. Em relação à saúde, deverá ser educado para a nutrição, para a prevenção de doenças e para assumir uma postura favorável à formação sanitária básica. Ao nível da cidadania económica, deverá o cidadão ser educado para a produção, para a gestão de recursos, para a distribuição de bens e serviços e também para o consumo. No âmbito das questões do género, as mulheres deverão ser respeitadas e encaradas com os mesmos direitos e deveres que os homens. Educar uma mulher é o primeiro passo para se educar uma família e, é neste contexto, que as mulheres se tornam em agentes estratégicos de democratização e de desenvolvimento. Face à multiculturalidade, existente em todos os continentes, cada cidadão, através de uma educação intercultural, terá de ser educado para a sua própria identidade cultural, para convivência e coexistência com outras de diferentes culturas e para o ecumenismo.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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