Opinião

Armas & armas

Manuel Rui

Em Las Vegas, Estados Unidos da América, um homem de 64 anos, entra num hotel. Leva consigo um arsenal de carabinas, suponho em caixas como as de instrumentos musicais tipo contrabaixo (!).

Instala-se num cómodo sito no 32º andar do Mandalay Bay, casino de fama. Dali começa a disparar contra uma multidão que se divertia num festival de música nesse domingo. Matou 59 pessoas e feriu mais de 500.
É uma imitação do real sobre a ficção que, todas as noites, os menus “educativos” dos canais de televisão nos oferecem.
Há armas e armas. E a história da América que passaram para o cinema os índios como os maus da fita e heróis os cowboys...
Num aeroporto pode haver exposição de armas e publicidade para quem quiser dirigir-se a um campo e divertir-se atirando em alvos mas alguém pode ser incomodado se transportar um canivete no bolso. Também, se em Paris um transeunte gritar Alá com uma faca na mão, pode muito bem ser abatido pela polícia, o trânsito é interrompido, gera-se confusão... e osMedia falam durante uma semana sobre o pai, a mãe e os irmãos.
As leis de uso e porte de arma, por regra, visam a defesa pessoal (pistolas ou revólveres) e outras para caça ou tiro desportivo. Estamos a falar de armas para civis. Mas aqui tratamos não de armas de defesa mas de ataque.
A legislação sobre a matéria evoluiu e a Segunda emenda à Constituição (1789) estabeleceu: “Uma bem regulamentada milícia sendo necessária para a segurança de um Estado livre, o direito das pessoas de manter e portar armas não deve ser infringido”.
A legislação e interpretação diferem de estado para estado, assinalando-se que a proibição do porte ostensivo é adoptada por seis estados. Certo é que ter armas de fogo nos Estados Unidos é um direito tão inalienável quanto a liberdade de expressão ou comprar coca-cola. Por isso não admira que adolescentes levem armas para as escolas e ocorram massacres com uma criança fazendo rajadas para a turma inteira.
A questão do desarmamento de civis que hoje tantas organizações defendem, por paradoxal que pareça foi usada pelos nazis como proibição aplicada a judeus que eram executados se apanhados mesmo com simples armas brancas (facas) e a todos os países que Hitler ia ocupando para prevenir a resistência clandestina dos ocupados. Também Mao Tsé Tung usou a mesma lógica...e quem diria Idi Amin.
Na América as armas de fogo matam tanto como os acidentes de viação. Estas sociedades violentas fizeram-se com emigrantes que exterminaram os donos da terra... como o Brasil que, tendo menos armas que a América tem três vezes mais mortos a tiro que os Estados Unidos (incluindo os ataques à mão armada de foro criminal, vulgo assaltos e não apenas massacres ou chacinas).
Certo que há países com leis sobre uso e porte de arma e não acontecem massacres. Trata-se no fundo de uma questão cultural.
Mas qual a razão porque presidentes da envergadura de Clinton e Obama não conseguiram ganhar a batalha contra a emenda constitucional?
A NRA (Associação Nacional do Rifle) e a NAGR (Associação Nacional pelo Direito às Armas) fazem lobby, patrocinando deputados e senadores em milhões e milhões de dólares. Uma autoridade na matéria, Sarah Bryner, assegura que os grupos pró-armas de fogo são musculosos contribuintes de campanhas políticas para o Congresso e a Casa Branca. Quem sabe se também “ajudam” nos filmes que despejam fogo nos nossos écrans?
As armas de fogo matam mais de 90 pessoas por dia na América e, segundo especialistas, as mortes por armas de fogo poderiam diminuir 90% com três leis federais. E depois? Mesmo em tempo de crise as fábricas de armamento costumam fechar?
Lembro o nosso tempo do “tiroteio” matinal anunciando que tinha passado o pesadelo da noite. E também me lembro da chamada para a população entregar as armas, muitas com que se defendeu Luanda. E a população respondeu. Também me lembro de ver um sóvias no mercado do Prenda a trocar uma pistola por uma lata de leite em pó... e mais outras. Mas sobra que somos de uma cultura avançada e, hoje, os portadores de armas são delinquentes que as conseguem da maneira que a gente sabe. Estes exemplos de desarmamento voluntário não costumam vir nos destaques civilizacionais para não ocupar espaço de notícias como a do homem que entrou no hotel com um arsenal e fogachou até se fartar.
Óbvio que em nenhum hotel aqui de Angola, alguém passaria a recepção com uma série de volumes contendo carabinas.
Fiquem lá com a vossa grandeza da cultura do uso e porte de armas indiscriminados com a graça divina dos juramentos com a mão sobre a bíblia.
Em vez de munições queremos comida. E em vez de armas colheres e garfos...

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