Opinião

Arte e resistência no ISARTE

Adriano Mixinge | *

Exceptuando os organizadores, os estudantes e um pequeno grupo de interessados, quase ninguém se apercebeu da inauguração da exposição “Paradigma Ano Zero. O alvorecer na arte como resistência”, de quinze dos primeiros dezoito licenciados em artes visuais e plásticas do Instituto Superior de Artes (ISARTE), quinta-feira última, no Museu de História Natural, em Luanda.

Situado no Quarteirão U19 do Kilamba, o ISARTE é um lugar onde múltiplas histórias se cruzam, todas elas, à volta tanto da capacidade que tem a arte de transformar a vida das pessoas, como da formação requerida para entender a arte como uma experiência elevada que, de facto, é diferente das práticas artesanais com que, entre nós, muitas vezes, tendem a confundir-se.
Sob a direcção-geral de Jorge Gumbe, professores angolanos, alguns dos quais como a Francisca Velasco e o Rómulo Rosa, formados no Brasil, e cubanos como a Karenia Cintra Rodriguez e o Pedro G. Ocejo, trabalham em condições que poderiam ser melhoradas. Pelos parcos recursos com que contam, quem os visita nota logo que mais do que um Instituto Superior, aquele é o bastião de uma resistência artística inquebrantável: eles acreditam que, com muito pouco, podem fazer muito e até já começaram a fazer, mas precisam ser mais valorizados. Para além das artes visuais e plásticas, este ano também terminarão, no ISARTE, vários licenciados em Canto e em Dramaturgia.
Mesmo não tendo ainda as condições ideais – boa localização, infra-estrutura técnica e equipamentos adequados, biblioteca funcional, corpo docente melhor reputado, bem como um orçamento digno – que deveria ter, tanto como instituição académica do ensino superior, assim como instituição que será a alavanca da futura transformação da arte e da cultura, em Angola, com os primeiros licenciados que formou e com a exposição “Paradigma Ano Zero”, o Instituto Superior de Arte acaba de confirmar que as coisas mudaram: a partir de agora, nos circuitos da arte em Angola, nada será como antes.
Haverá mais exigências e os artesãos confundir-se-ão cada vez menos com os artistas ou, como afirma a professora Karenia Rodríguez, no texto da folha de sala: “ esta junção de estudantes, que explora as possibilidades de várias linhas discursivas e meios artísticos, é uma mostra do processo artístico e pedagógico do ISARTE. Pinturas, esculturas, fotografias, instalações, environment, performances e vídeo-criação estão reunidos para evidenciar as múltiplas possibilidades criativas”. Essa ideia reducionista de que a arte são só as máscaras, as estatuetas e a herança folclórica tem os dias contados.
Apesar de se notar que “Paradigma ano Zero” é uma exposição de recém-licenciados – David Dombaxi (Zuma), Adriano Cangombe, Aronildo Domingos (Cafuma Júnior), Yola Balanga, Esperança Sebastião (Kizuku), Kingica, Geovanny, Sanzula Sebastião, Osvaldo Ferreira, Miguel Alexandre (Maskal), João Mabuaca (Mayembe), Lagos Kitenda, Ana Luzia, Virgílio Pinheiro, Zeferino Bombo e Divalda Massuia Pedro (Kalunga) -, há nela várias coisas dignas de destaque: em primeiro lugar, perpassa por ela a irreverência de quem sabe que a arte muito mais do que ofício e/ou o decorativismo é, sobretudo, uma forma de reflexão crítica, um instrumento de transformação social.
Em segundo, a exposição mostra que os alunos estão mais atentos tanto à arte africana contemporânea como à arte internacional, sendo que artistas como Yinka Shonibare, Ousmane Sow, António Ole, Keyezua, Ingrid Mwangi ou Marina Abramovich são evocados, citados e/ou reapropriados.
E, em terceiro lugar, em perfeita sintonia com o que está a acontecer em todo o mundo, “Paradigma Ano Zero” demonstra que a fotografia, a performance e a instalação serão cada vez mais utilizadas pelas novas gerações de artistas.
Apesar dos esforços e da resistência que o Instituto Superior de Arte encarna, ela é ainda uma instituição que carece de muitos meios técnicos, está muito mal instalada e localizada, o que, de certa forma, faz com que trabalhe à margem do mercado artístico luandense, sendo também incapaz de atrair para o seu corpo docente reputados artistas e especialistas, angolanos e estrangeiros.
Está, pois, na hora de fazermos uma reflexão sobre a possibilidade de o Ministério do Ensino Superior e o Ministério da Cultura trabalharem, em conjunto, para transferirem o Instituto Superior de Arte para o centro da cidade, para um sítio como pode ser, por exemplo, o das antigas instalações da Assembleia Nacional. Isso é possível remodelando-o e dotando-o de condições técnicas adequadas, melhorando as condições de trabalho dos seus docentes, tudo isto sem deixar de instalar, também, no mesmo lugar, - que até é amplo -, um centro cultural que seja capaz de atrair artistas, especialistas e todo o tipo de manifestações artísticas e de públicos, para que seja um centro cultural de excelência e de transformação social.

* Historiador e crítico de arte

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