Opinião

Artistas usam tintas para combater o extremismo

Ricardo Pérez-Solero | EFE

Pinturas com temas de paz, tolerância e união decoram muros de Jacarta em resposta aos dois ataques suicidas islâmicos que aconteceram há um mês e meio e mataram três polícias numa estrada da capital da Indonésia.

Ao todo, cinco artistas - quatro homens e uma mulher - decidiram, alguns dias depois, recorrer à arte urbana para lutar contra o medo e através de espaços públicos com o projecto “Reclaim: Jakarta” (“Recupera Jacarta”). Ideia do artista Isrol, a proposta vingou com uma campanha de financiamento colectivo que arrecadou mil dólares norte-americanos em menos de 24 horas.
Além de Isrol, os artistas indonésios Aryo Dewa Bharata, Robowobo, Dan Wacky e Nur Nus assinam os vários murais, grafites e pósteres que surgiram no dia 8 de Junho no sul e no leste da capital do país com a maior população muçulmana do mundo.
“É uma resposta positiva para a bomba recente no leste de Jacarta, a bomba de Kampung Melayu, para passar do medo para atitudes mais positivas”, disse Robowobo na loja onde vende latas de spray para grafitar.
Desde o atentado de 24 de Maio, que foi reivindicado pelo Estado Islâmico (EI) e atribuído pelas autoridades a um dos seus grupos filiados na Indonésia, o Jamaah Ansharut Tauhid, outros dois ataques jihadistas aconteceram, ambos com armas brancas.
“Coisas ruins continuam a acontecer porque pessoas boas se negam a fazer algo a respeito”, dizia a mensagem num dos desenhos de Aryo Dewa Bharata, agora retirado pela equipa de limpeza municipal. Há alguns anos, Bharata foi viver em Bali, ilha de maioria hindu.
“Em Jacarta, o extremismo é cada vez maior, e aqui existe mais tolerância e respeito pelas diferenças”, explicou o artista, que é muçulmano.
Ele garante que seguidores radicais do islão estão por todo o país, inclusive na sua família.
“Um primo por parte de pai, que cresceu comigo, saía comigo, agora está na ala do 'islão puro”, lamentou Bharata, que acredita que a arte possa mudar o comportamento das pessoas, ainda que lentamente.
Apesar da Indonésia ter sido apontada em várias ocasiões por líderes ocidentais como um exemplo de tolerância e diversidade religiosa, a maioria dos habitantes de Jacarta concorda que a influência dos religiosos radicais aumentou. Dos 201.550 presos que estavam em presídios da Indonésia até Outubro do ano passado, 220 tinham sido condenados por terrorismo, conforme dados oficiais.
“Quando as pessoas perdem os seus empregos e não têm com o que se manter, recorrem a esta ideologia. Precisam de ter algo que possam defender”, considerou, por sua vez, Robowobo.
O artista, conhecido pelo desenho do robot que está em quase todas as suas obras, escolheu a frase “União na diversidade”, o lema nacional, para conduzir a sua contribuição para o “Reclaim: Jakarta” e para lembrar que existe mais de uma religião e mais de uma cultura no arquipélago.
Por trás desse colectivo está a iniciativa global Micro Galleries, que em Outubro reunirá em Jacarta artistas nacionais e internacionais para “usar a arte como um meio de mudança social” e aproveitar os espaços públicos, segundo a directora Kat Roma Greer.
“É importante que as comunidades sintam que fazem parte e que são colaboradoras do evento e não só uma tela em branco. É um pouco diferente do Reclaim Jakarta, que por natureza é uma resposta de guerrilha”, disse Kat.

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