Opinião

As fake news, as redes sociais e o ataque à verdade dos factos

Filomeno Manaças

Estava preocupado em escolher um tema para preencher hoje este espaço. Acabei por ficar com a tarefa facilitada pelo post lançado nas redes sociais em que aparece o meu nome como um dos beneficiários de uma suposta “doação” e com a realização oportuna, ontem, sob a batuta do Ministério da Comunicação Social, de uma conferência internacional sobre os desafios que o sector enfrenta em Angola.

O evento, entre outras tantas questões que cada vez com maior agudeza vão sendo colocadas, tratou de abordar os temas “O advento da pós-verdade e das fake news” e “O comportamento dos jornalistas nas redes sociais”, entregues, respectivamente, à responsabilidade do professor José Octávio Van-Dúnem e de Catarina Tavares de Carvalho, directora Executiva do Diário de Notícias.
Dois assuntos que, em boa verdade, não constituem novidade para a nossa classe de jornalistas, pois há registo de outras iniciativas do género em que esses temas, com outras designações, fizeram parte do cardápio dos encontros realizados.
Mas é por serem uma preocupação permanente nos dias de hoje, pelos desafios que encerram e por haver casos que configuram condutas desviantes em relação àquilo que as regras do jornalismo aconselham, que volta e meia estamos reunidos para discutir o impacto negativo e até mesmo a ameaça que as fakenews representam para a democracia, para a formação da cidadania, para a verdade como um bem público de valor ético incomensurável e que deve presidir a produção de informação, tanto quanto é importante que o jornalista não pode, não deve pensar que, por estar nas redes sociais, tem as portas abertas para se despir dos cânones que balizam o exercício da sua profissão.
E a constatação que fazemos é que, apesar de encontros dessa natureza se repetirem, destinados essencialmente a uma abordagem pedagógica e apelativa, às vezes é de onde menos se espera que surgem os posts ou a disseminação de informação não verificada, sem o mínimo de sustentabilidade, em antinomia ao que recomenda o jornalismo.
É que o jornalista, com nome na praça e que era suposto ser pessoa especialmente qualificada, pois possui as ferramentas necessárias para pré-avaliar o conteúdo da mensagem, sucumbe à malícia e transforma-se ele próprio num veículo de propagação da falsa informação. Ao repassá-la, torna-se parte activa no processo de difusão do seu conteúdo, até porque não teve (não tem tido) o cuidado de pelo menos alertar para a sua essência duvidosa. Não pode, pois, dizer que não tem responsabilidades.
Estranho, ou nem tanto assim, se formos ao fundo da questão e analisarmos sob um outro prisma a narrativa dessa prática, é verificar que esses jornalistas até demonstram uma boa base de conhecimentos sobre o exercício do métier.
E são esses que se colocam na linha da frente contra a regulamentação das redes sociais, sob o argumento de que isso violaria a liberdade de expressão, esquecendo-se que ela, embora esteja consagrada na nossa Constituição, como direito fundamental, não tem valência absoluta sobre os demais com a mesma dignidade.
A liberdade de expressão não pode ser mais forte que o direito ao bom nome, à honra, à imagem. A liberdade de expressão não é um passaporte para a injúria, a difamação e a calúnia. Tudo tem limites e está na hora de os jornalistas marcarem o virar de página na assunção plena das suas responsabilidades, enquanto actores que têm um papel relevante a desempenhar para colocar a classe e a profissão num outro nível de intervenção.
Acelerar o processo em relação à Comissão da Carteira e Ética e dar impulso ao código de ética e deontologia dos jornalistas são passos que se revelam imprescindíveis para se pôr alguma ordem no circo, além, claro, da necessidade de se responsabilizar judicialmente quem se escuda nas redes sociais para poder pôr em prática condutas tipificadas como crime pelo nosso Código Penal. É o que se faz noutras paragens e precisamos de caminhar rapidamente nesse sentido. A ideia de que Angola é ou deve ser um oásis de liberalismo selvagem, que permitiu outras tantas aberrações de que hoje nos queixamos, está a ser combatida com sucesso e faz todo o sentido que a Comunicação Social e as redes sociais não sejam campos onde subsistam actuações marginais susceptíveis de perigar os valores de coesão social.
De resto - só ignora quem quer - muitas das fake news perseguem objectivos políticos claros. Elas tornaram-se particularmente célebres num contexto de acirrada disputa política eleitoral nos Estados Unidos para as presidenciais que opuseram, em 2016, Donald Trump à Hillary Clinton.
Como nota final para esta prosa, devo dizer que eu até desconfio que o Carlos Pacavira (que repassou o post no grupo da Cooperativa de Jornalistas no WhatsApp), andou esses anos todos a assinar, por mim, a alegada lista e ficou com os tais 10 mil dólares que eram supostamente dados mensalmente, pois não vi um tostão furado sequer.

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