Opinião

As guerras de Trump (II)

Eduardo Beny

Abordamos, há dias, neste mesmo espaço a “luta” interna de Donald Trump que se arrasta até ao Congresso, em defesa da sua “dama”- a construção do muro fronteiriço, entre os EUA e o México. Mas, o Presidente norte-americano tem outra frente de batalha, nomeadamente a “guerra comercial" com a China. Se, no Congresso, o que está em jogo é a conquista da Casa Branca, por detrás da "guerra comercial" com a China se perfila a disputa pela liderança tecnológica mundial e o controlo da economia global que ela permitirá.

Xi Jinping enunciou, claramente, as suas ambições quando fixou como objectivo do seu programa do «made in China» fazer do seu país, até 2015, a primeira potência mundial em sectores estratégicos, como a aeronáutica, as energias renováveis, os veículos eléctricos e os transportes, a robótica e, sobretudo, as comunicações e a inteligência artificial. Segundo os especialistas, Pequim estaria a avançar à marcha forçada, em direcção a estes objectivos, apesar do abrandamento do seu comércio externo e do seu crescimento macroeconómico, e estaria, já, na dianteira em relação às teletransmissões da quinta geração (G5) e aos satélites quânticos, motores de arranque da nova revolução tecnológica. Trata-se de uma «corrida» em que está em jogo o controlo das actividades (políticas, económicas e militares) da humanidade no século XXI.
Em relação a este duelo, não há divergências, nem nos Estados Unidos nem entre estes e os seus aliados e parceiros ocidentais. Mesmo aqueles que não partilham a ideologia da «vocação evidente» (ManifestDestiny) relativo à liderança do «mundo livre», a perspectiva de passar sob o domínio da «ditadura chinesa» provoca arrepios. Neste contexto a «guerra comercial» desencadeada por Trump, sob o pretexto de reduzir o déficit abismal da balança comercial americana é apenas uma bandeira eleitoral, para eleitores crédulos ou menos esclarecidos. Aliás, a primeira ronda de negociações que teve lugar, em Washington, de 25 a 31 de Janeiro foi “construtiva” e Trump se diz convencido de que será possível chegar a um “bom acordo” com o “amigo Xi Jinping” - que deverá ser rubricado numa cimeira entre os dois chefes de estado e as sanções, já, decretadas, unilateralmente, contra a China não tiveram grandes efeitos sobre as economias dos dois países, nem sobre o porta-moedas dos seus habitantes.
Só os investimentos directos chineses, nos EUA, caíram 95 por cento num ano e Pequim continua a ser o primeiro credor estrangeiro (5 por cento) da dívida pública americana, que continuou a aumentar. Pode Xi Jinping conceder ao «amigo» Trump uma redução significativa do actual desequilíbrio comercial, entre os dois países? Pode! Dizem os economistas. Decidir adquirir, nos EUA, os produtos agrícolas e parte dos hidrocarbonetos que a China importa, actualmente, de outros países produtores, que seriam as principais vítimas deste acordo, além do abrandamento do comércio mundial multilateral.
Pode abrir (mais) o mercado chinês às empresas e produtos estrangeiros, introduzir uma dose de concorrência que ajudará a modernizar o tecido empresarial e a satisfazer a procura dos consumidores chineses. Mas há questões, sobre as quais, será difícil, para não dizer impossível de chegar a acordos definitivos e, sobretudo verificáveis. É o caso das acusações de «pirataria», pela China, de tecnologias e inovações americanas, por várias razões que têm a ver com os respectivos modelos de desenvolvimento. Enquanto nas economias liberais actuais o essencial da inovação passa por parcerias público-privadas (de que os chamados GAFA, gigantes tecnológicos- Google, Apple, Facebook e Amazon são a ponta de lança), na China são empresas estatais ou para estatais como Huawei ou ZTE.
Ao lançar a suspeição, sobre as alegadas actividades de espionagem e pirataria da Huawei, ao serviço da China (esquecendo as provas existentes da utilização dos GAFA pela NSA-Agência de Segurança Nacional americana, com a mesma finalidade), para obter a sua exclusão dos mercados europeus e japonês, é todo o seu desenvolvimento que os Estados Unidos querem travar. A detenção em Dezembro, no Canadá, da directora comercial e filha do fundador daHuawei, MengWhanzou, acusada pela justiça americana de 13 crimes económicos (violação das sanções, contra o Irão, roubo de tecnologia e falsificações) faz parte desta ofensiva. Mas é duvidoso que o “caso Huawei” faça desviar os dirigentes chineses dos seus objectivos. E não lhes falta meios de pressão, sobre os Estados Unidos, da Coreia do Norte á Venezuela. Como diz o provérbio africano, quando os elefantes lutam, é o capim que sofre…

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia