Opinião

As lágrimas de crocodilo e perdoar o imperdoável

Luciano Rocha

Angola continua viver fase crucial como Nação presente e futura, reflexo, é verdade, da crise económica e financeira internacional, mas também da acção da gatunagem que lhe delapidou o erário.

Os larápios de “colarinho branco” são, porventura, mais culpados da situação em que vivemos do que a crise internacional. Que jamais os afectou. Pelo contrário, lhes engordou contas bancárias cá dentro, mas, principalmente, lá fora. Algumas abertas em paraísos fiscais, onde procuraram esconder medos de futuros ventos de mudança. Somente por isso. Que vergonha é coisa com a qual nunca conviveram. Por tal razão, a maioria dos angolanos não sente por eles a mínima compaixão. Vertam as lágrimas de crocodilo que agora fazem sair dos mesmos olhos que fingiam não ver a morte de tantas pessoas. Em muitos casos causada por doenças evitáveis e curáveis. Que, todavia, em pelo século XXI, entre nós, se tornaram fatais pela falta de medicamentos nos sítios onde deviam estar. E eram (são) vendidos em mercados de bairro, ruas e becos, em qualquer esquina, no “mercado negro” a preços que se conhecem, tabelados de acordo com a lei da especulação. Aos quais os mais deserdados da sorte, as maiores vítimas entre todos nós, não têm acesso, mesmo que se dispusessem a adquiri-los.
Crianças, homens e mulheres, de todas idades, também morreram pela inexistência de hospitais dignos desse nome. Que deixaram de ser construídos, ou reparados, pela desvergonha dos larápios de “colarinho branco”. Que tomaram de assalto o erário e o transformaram em saco privado sem fundo.
À lista de vidas perdidas pela acção directa da gatunagem podem juntar-se estradas feitas com menos espessura de cobertura ou materiais de fraca qualidade, pagos pelo contribuinte, como de primeira. O “troco” já se sabe que destino conheceu. O mesmo - “igualito”, como diz o povo - daquele que sobrava das construções de habitação social, estabelecimentos de ensino, pontes, mercados. Em suma, uma quantidade infinda de coisas sempre anunciadas, em nome do progresso e bem-estar dos angolanos, mas na verdade, da boa vida deles, os trafulhas.
O angolano, sabe-se, é afável. Uma roda de amigos, umas birras a estalar, tiradas da geleira ou de selha, tanto faz. A festa está pronta, o ambiente criado para trocar estórias, inventá-las, aumentar a última versão ouvida, gargalhar, até tirar partido de desgraça vivida. Dos outros e de nossa. O angolano gosta da vida e não pede muito. Mas abusos, não aceita. Pelo que, a maioria de nós, está expectante quanto ao desfecho do julgamento de Augusto Tomás. Que, entre tantas coisas, foi ministro e deputado à Assembleia Nacional. Tal como os de outros suspeitos de desbaratarem o erário em proveito próprio. Não se pede sangue, mas justiça. E que os comprovadamente larápios do erário sejam condenados a penas exemplares.
Por todas estas razões, a maioria dos angolanos - não são necessários estudos de opinião, basta ouvir conversas de rua, bar, táxi, maximbombo - não gosta que lhe falem, sequer sussurrem, nem a brincar, que há duas justiças: a dos endinheirados - mesmo que à custa de roubos - e a dos outros.
A mim, não me passa pela cabeça, nem no pior dos pesadelos, esta hipótese. Que, a suceder, significava o descrédito total da Justiça angolana e, por arrastamento, do próprio país. Cá dentro e lá fora. Embora, me surpreenda - ainda me surpreendo! -haver quem, em nome do que seja, entenda que se deve perdoar crimes passados e presentes - assim, como quem passa o pano do pó sobre a secretária - e se tenha apenas em conta os actuais e futuros. E que tal dizerem-nos que os roubos de lesa Pátria não passou, afinal, de experiência para ver a reacção da malta e se o país aguentava viver à beira da bancarrota!

 

 

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