Opinião

As máscaras vieram para ficar

Filomeno Manaças

Hoje estou de máscara na foto. Assim será enquanto durar a pandemia da Covdi-19 e não houver e tiver apanhado a vacina que me proteja do vírus.

Faço-o para encorajar quem me lê a usá-la e passar a considerar a máscara facial como um artigo essencial no seu dia-a-dia, nestes tempos em que o novo coronavírus veio alterar, de forma dramática, os nossos hábitos e costumes, remetendo-nos para o distanciamento físico, mesmo em relação às pessoas que nos são mais queridas, atingindo assim brutalmente um dos aspectos da nossa essência, enquanto humanos: o de, por via do afecto, demonstrarmos a nossa ligação, a nossa simpatia para com alguém. Que o novo coronavírus nos obrigasse só a lavar constantemente as mãos com água e sabão ou a desinfectá-las com álcool em gel, ainda nos conformávamos facilmente.

Está a ser duro, mas tem de ser, não poder abraçar quem não vemos faz muito tempo; não poder abraçar e dar dois beijinhos a uma pessoa por quem nutrimos especial carinho e que havia saído do nosso radar. Está a ser duro, mas tem de ser, ensinar os filhos, sobrinhos e netos que agora, por causa da Covid-19, os bons e velhos hábitos de cumprimentar como deve ser os mais velhos da família descartam dar dois beijinhos e aceitar aquele abraço fraterno, aconchegador, sinónimo de protecção, de conforto.

Está a ser duro, para muita gente, mas tem de ser, os avós não poderem fazer cafunés aos seus netinhos e desfrutarem do prazer do contacto afectivo com aqueles que são a sua continuação na terra. Vê-los a brincar, a correr, a saltar, nem sempre é suficiente. Tocá-los, pô-los no colo, apertá-los no peito, afaga o ego e enche o pote de afectos na justa medida das necessidades da alma. Não há dinheiro no mundo que compre/pague esses momentos. Não há nada que compense! Está a ser duro, para muita gente, vê-los - os netos - ansiosos por retribuírem os afectos e não poderem fazê-lo. A atrapalharem-se entre o desejo de se chegar e a obrigação de cumprir a medida sanitária de distanciamento físico. Mas tem de ser.

Dizem os especialistas que vamos ter de aprender a conviver com a Covdi-19, porque ela não se vai embora assim tão cedo. Vai permanecer activa pelo menos por dois a três anos e, enquanto não houver vacina, tratemos de tomar todas as medidas de precaução. Por isso, além de lavar sempre as mãos com sabão ou desinfectá-las com álcool em gel, de observar o distanciamento social (físico), é preciso fazer também sempre o uso da máscara em locais públicos. Ao contrário da época do Carnaval, de utilidade recreativa e só para aquele período em que nos entregamos à folia, frequentes vezes teatralizando situações da nossa vivência quotidiana, as máscaras para prevenir a propagação da Covid-19 vieram instalar-se como um acessório indispensável para a protecção contra a contaminação pela doença e pela salvaguarda da nossa vida. Quem diria?
De memória curta que somos, nós, os humanos, esquecemo-nos rápido das experiências do passado. Muitos desconhecem e outros tantos já não se lembravam que, afinal de contas, no século passado, foi a máscara - a par de outras medidas - que permitiu salvar muitas vidas humanas, quando a pandemia da Gripe Espanhola fez estragos pelo mundo inteiro. De facto, naquela altura (entre 1918 e 1920) - contam relatos feitos, de que há registo em vários livros e hoje fáceis de acessar via Net -, houve pessoas que se opuseram ao uso da máscara. Nos Estados Unidos da América, após vários meses, um grupo de pessoas, cansado das restrições então impostas, criou um movimento denominado “Liga Anti-Máscara”, que realizou várias manifestações e saiu às ruas de forma desprotegida. O resultado não poderia ter sido outro: nos dias subsequentes, houve um aumento considerável do número de infecções e, consequentemente, de mortes. A população convenceu-se, de modo trágico, que não tinha outra opção, senão usar a máscara até que fosse encontrada uma solução definitiva.

Com o eclodir da actual pandemia da Covid-19, assistimos, no início, a posições controversas em relação ao uso da máscara, até mesmo por parte da Organização Mundial da Saúde. Desde posicionamentos segundo os quais o uso de máscara não era necessário, que a sua protecção era ineficiente e ela não representava garantia de a pessoa não vir a ser infectada, que o seu uso era apenas recomendado ao pessoal médico e, por fim, a necessidade do uso obrigatório da máscara em todos os locais públicos para melhor prevenir a propagação do vírus. E na sequência vieram outras recomendações, como a importância da máscara ser feita com três camadas de tecidos, para garantir melhor protecção.
Portanto, o uso da máscara é, agora, imprescindível. Ninguém deve pôr-se na rua sem estar devidamente “mascarado”. Algumas das máscaras em uso actualmente são sufocantes. Pelo que o conselho vai no sentido de o leitor procurar a que mais conforto lhe proporciona. De igual modo, trate de não improvisar. Numa actividade pública, evite usar uma máscara que não tenha antes experimentado e de que não esteja seguro que lhe vai deixar respirar confortavelmente.

O meu contacto com uma máscara deu-se na infância. Os muquixes passavam às vezes pela minha rua, a dançar, os indivíduos escondidos naquele aparato todo de feixes de folhas, paus e chocalhos, a máscara de madeira pintada com os orifícios para os olhos, o nariz e a boca. Receoso, eu ficava a olhar para eles refugiado no colo da minha mãe ou de uma das minhas irmãs mais velhas. Achava-os enigmáticos, daí o medo que me suscitavam. Aproveitando-se disso, quando não quisesse comer, ou estivesse mais tempo na brincadeira do que a estudar, era a ameaça de chamar o muquixe que me punha na ordem. Até, já mais crescido, eu perceber, como se diz na gíria hoje, que me “tinham apanhado a pata”. Que eles apareciam quando era o tempo da mukanda (circuncisão).
Hoje, o meu colo é a máscara que me protege contra a Covid-19.

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