Opinião

As utilitárias “Caleluias” de 3 e 5 rodas

Jaime Azulay

Para quem não sabe, foram essas curiosas e utilitárias motos que praticamente ajudaram a construir todos os bairros novos, pelo menos em Benguela, Catumbela e Lobito. Com chuva teimosa ou com sol à pino atingem lugares aonde os automóveis não conseguem chegar.

São engenhos imparáveis nas estradas ao no que resta delas. Devido ao sistema técnico de tracção por veio transmissão e diferencial são robustas a valer e suportam cerca de uma tonelada de carga que, tanto podem ser vinte sacos de cimento, ou um atado de varões de aço de seis metros cada, ou mesmo uma meia carrada de areia ou brita. Conseguem ainda levar várias fiadas de blocos de cimento ou de tijolos, portas e janelas. São elas que todos os dias carregam as senhoras peixeiras, desde as Tombas do Kasseque, com os seus cestos e baldes carregados de peixe lambula, até aos mercados dos bairros mais recônditos da Graça, Luongo, Vimbalando, Lixeira, etc. Superando atalhos por ravinas profundas, montes enlameados e pontecos feitos de troncos de árvores, ligam, estoicamente, em cada hora do dia ensolarado ou da noite mais escura, as nossas comunas às suas aldeias, bem lá no interior. Ao lado das suas irmãs de duas rodas, as conhecidas "Sayovo", a sua utilidade é indiscutível, tal como é real a sua viabilidade, tendo em conta a relação custo-benefício.
O Governo está a levar a cabo o fornecimento desses meios na versão de cisterna para transporte de água e assim mitigar os efeitos da seca no Sul e Leste do país. Algumas pessoas, talvez um pouco desinformadas, criticam seriamente a decisão. Nós que andamos há décadas pelas estradas conhecemos o valor deste veículo simples. Cruzamos com elas por todo o lado, carregadas de produtos do campo ou lavando para lá artigos adquiridos no litoral. Chegamos a encontrar "caleluias" a transportarem doentes graves para unidades hospitalares, quando não existe uma ambulância disponível. É daquele tipo de solução simples e funcional, muito diferentes das soluções megalómanas com elevados custos financeiros e que depois deixam de funcionar e se transformam em elefantes brancos. No campo requerem-se soluções simples e exequíveis com base nas disponibilidades dos recursos locais.
Nos resta chamar a atenção para se evitarem erros na gestão do referido programa elaborado pelas autoridades. Por um excessivo sentimento de compaixão alguns defendem com insensatez que deve pura e simplesmente oferecer as motos no Cunene, Cuando Cubango e etc., sem qualquer crédito ou garantia, ainda que de valor mínimo. Se entregarem os meios sem qualquer contrapartida da parte dos beneficiários, aí sim, poderei dar razão àqueles que criticam o referido programa, pois, não tardará que, em poucos meses, só veremos sucatas e as motos que eventualmente sobreviverem a serem utilizadas para outros fins.
Finalizando esta simples crónica, quanto a mim, a opção é muito boa e dá também a oportunidade de se criarem pequenas oficinas privadas para a assistência e manutenção das mesmas.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia