Opinião

As danças da Srª. May

A imagem da primeira-ministra britânica, a dançar em ritmo africano numa escola de Joanesburgo, foi apenas mais um pretexto para que o lobby Afrikaner na África do Sul aproveitasse a situação e desse mais um passo na cruzada contra o governo de Cyril Ramaphosa.

O grande objectivo dessa cruzada, cada vez menos silenciosa, tem por objectivo mais que evidente travar algumas reformas políticas que estão previstas e que visam reajustar os desequilíbrios raciais que ainda se fazem sentir no país.
Nos últimos meses esse lobby tem estado particularmente activo, escolhendo as redes sociais como “campo de batalha” para passar mensagens a Ramaphosa e ao seu ANC sobre apoios internacionais que têm sido colhidos para a manutenção da actual situação, onde a minoria branca mantém o domínio sobre sectores importantes da economia sul-africana, desde logo as terras, mas não só…
Theresa May, que veio à África do Sul há uma semana para tentar encontrar parceiros comerciais que possam minimizar os efeitos da saída que o Reino Unido decidiu fazer da União Europeia, surgiu perante esse lobby como a cidadã branca que se deu ao desplante de dançar com meia dúzia de crianças negras numa alegre e descontraída confraternização.
Este simbolismo fez com que os Africaners vissem nessas crianças negras a imagem das “perigosas” futuras proprietárias das fazendas que o governo do ANC pretende “roubar” aos seus actuais proprietários.
Ainda a propósito da dança que a senhora May resolveu fazer numa escola de Joanesburgo, uma famosa colunista britânica, Katie Hopkins, postou no Twitter uma foto desse momento, que rotulou de “histórico”, com uma legenda onde se podia ler: “A população branca está quase a ser escravizada na África do Sul, mas ainda há quem escolha sacrificar-se voluntariamente”.
Esta mensagem de uma das principais activistas que lutam para evitar a aplicação de reformas na África do Sul, sobretudo a aprovação de uma nova lei de terras que permita a expropriação de fazendas sem pagamento de indemnizações, é apenas um dos muitos exemplos da campanha global que pretende transmitir a ideia de que a “minoritária e indefesa” população branca está a ser vítima de um violento ataque por parte de um governo e de um partido, o ANC, “dominado por negros”.
Recentemente, o omnipresente Donald Trump usou também a sua conta no Twitter para dizer que tinha pedido ao seu secretário de Estado, Mike Pompeo, que fizesse um estudo para que os Estados Unidos pudessem fazer alguma coisa para evitar que os fazendeiros brancos “fossem assassinados” durante o processo de expropriação das suas terras. No interior da própria África do Sul têm sido vários os exemplos da crescente influência que os Afrikaner estão a ter junto da opinião pública internacional, através da propagação de mensagens nas redes sociais a darem conta de perseguições e actos de discriminação contra a população branca, com algumas ameaças de morte pelo meio.
O aumento do número de cursos de Afrikaner, especialmente em Joanesburgo e na Cidade do Cabo, é outro indício de que está em marcha um movimento que pretende salvaguardar alguns hábitos antigos de segregacionismo, para que possam ser devidamente transmitidos às gerações futuras.
O nacionalismo Afrikaner foi construído à volta de uma linguagem própria usada pela minoria branca, sobretudo pelos fazendeiros, para se comunicarem entre si e constituía uma forma de separatismo para tentar demonstrar um certo tipo de “superioridade em relação à maioria negra”.
Porém, depois do fim do apartheid, essa comunicação passou a ser usada de modo cada mais restrito, quase clandestino, uma vez que chegou a ser encarada como um modo de “resistência conspirativa” para garantir a defesa dos privilégios que corriam risco de serem perdidos face à nova situação política que começou a despoletar no país com o fim do apartheid.
Perante isto, até agora, o ANC tem sentido uma visível dificuldade em encontrar a forma e o tom de neutralizar o perigo que representa o ressurgimento de uma disputa racial, cada vez menos surda, que tem estado na base do adiamento da aplicação de uma série de reformas fundamentais para que a África do Sul reencontre o caminho da unidade rumo ao desenvolvimento económico e social.

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