Opinião

As makas sobre a História de Angola

Faustino Henrique

A História de Angola está a ser feita por protagonistas, em Angola, em África e no mundo, de distintas sensibilidades da sociedade e, como sempre, cabe aos estudiosos fazer o devido acompanhamento  do antes para a colocar preto no branco no papel.

E muito do que ocorreu antes de 1975 e depois, enquanto país em conflito, com a refrega entre os movimentos nacionalistas, com guerra de agressão do Apartheid e o conflito armado entre Governo e UNITA, está e continua a ser registado. Obviamente que ao longo desses mais de quarenta anos, os autores em Luanda, Pretória, Lisboa ou Jamba,  marxistas e progressistas, religiosos e não religiosos, desde leigos a académicos, desde textos de investigação de pesquisadores a meras obras biográficas de políticos e militares, foi e está a ser escrita a História de Angola. Não faz sentido ouvir dizer que “a História verdadeira de Angola ainda precisa de ser contada” ou, como alguns aparentemente distraídos, insistem em dizer que a “História verdadeira de Angola precisa de ser escrita”, como se tudo o que existia até agora não tenha nada a ver com a História do país. É verdade que em todo este processo ocorreram distorções, mas não vale a pena perder tempo com avaliações sobre o que é historicamente verdadeiro e o que não é na medida em que, além de ser um exercício fútil, tudo isso se deve às diferentes visões.
Na realidade, nós nunca vamos ter uma “História verdadeira de Angola”, nem é expectável que isso aconteça, sendo o mais importante o conhecimento dos diferentes ângulos, visões e entendimentos por via das quais a História de Angola chega a cada um de nós. E o facto segundo o qual não há escrita neutra é elementar e, em grande medida, corolário do exposto acima traduzido na ideia de que não teremos nunca uma História dita verdadeira de Angola. A visão de como decorreram as coisas em Angola, desde a luta de resistência anti-colonial, a luta pela Independência Nacional ao conflito armado e político até hoje, vai variar sempre de autor para autor, o que constitui uma vantagem para os leitores angolanos e não o contrário.
Logo, estes, os leitores, deviam abandonar a velha ideia da procura da “História verdadeira”, feito Diógenes na antiga Grécia com a lanterna acesa em pleno dia, só que aqui, à procura do historiador honesto, descomprometido e perfeito. Não existe em parte alguma do mundo, nem na Europa, nem na Ásia, muito menos na América, porque a formação monárquica ou republicana, marxista, socialista ou democrática, religiosa ou não religiosa, conservadora, tradicionalista ou pós-modernista, acaba sempre por proporcionar diferentes visões sobre um mesmo assunto. Essa realidade, a produção de diferentes visões sobre um mesmo assunto, é, na verdade, o mais importante, tal como nos deparamos com diferentes histórias sobre os movimentos de libertação nacional, sobre o 11 de Novembro de 1975, sobre o 27 de Maio, sobre o pioneiro Ngangula, sobre a morte de Agostinho Neto, sobre as eleições de 1992, etc.
E para exemplificar, o militante da UNITA, seguramente, não gostaria ler a História de Angola pela escrita de um Basil Davidson, historiador e amigo de peito do MPLA. Da mesma maneira que, provavelmente, nenhum militante do MPLA gostaria de ouvir a História de Angola pela escrita de Fred Bridgland, o famoso biógrafo de Jonas Savimbi.
Mas, na verdade, quem está comprometido com a busca da fiabilidade dos dados, da precisão dos factos, da certeza de datas e números deve ler os dois campos porque, apenas assim, com o confronto das informações poderá chegar à verdade. São as diferentes versões que não permitem retirar as ilações que acabam por ser as mais consentâneas e reunir algum consenso, como também acabam por afastar leituras demasiado distantes do que se torna remediadamente aceites pela grande maioria.   
Temos, hoje, várias versões da História de Angola e é importante que estas várias formas como os mais diferentes autores “viram” e colocaram preto no branco o que se passou em Angola coexistam porque, no confronto dos dados que as mesmas comportam, acabamos sempre por retirar as melhores ilações. Essa recomendação é de longe a melhor, em vez de insistirmos no erro discursivo da busca da verdadeira História de Angola, como se a mesma viria  para agradar a gregos e troianos.

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