Opinião

As máscaras da mentira e o Dia da Resistência Indígena

Luis Alberto Ferreira |

O despreocupado desembarque das forças político-partidárias nazis no cais do parlamento alemão deixou a Europa e o magnate na maior das indiferenças.

Perante a ausência de um inverno de sobressaltos “ideológicos”, a instalação desta avançada nazi agasalha-se nas cálidas conveniências de outro fenómeno, desta feita bipartido: o uso da “democracia” sem critério e sem democratas e os chamados novos líderes ou conglomerados “centristas”. Foi assim que a França, invocando a vã glória do respirar de alívio pela derrota de Marine Le Pen, abriu caminho às recentes reformas laborais do “centrista” Emmanuel Macron. Reformas cuja cintilante “mais-valia” se traduz em facilitar despedimentos de trabalhadores e secundarizar a qualidade das condições laborais em fábricas ou “empresas”.
É a viver cenários desta índole que a União Europeia, eludindo a sujeição ao mais recente detector de mentiras, decide pôr em causa a transparência das eleições regionais acabadas de realizar na Venezuela. Acontece que a Revolução Bolivariana, num escrutínio sustentado por impecável, até mesmo invejável sistema electrónico, e acompanhado por observadores estrangeiros, saiu vencedora em 17 dos 23 governos regionais. (Por apurar, ainda, o vencedor na província de Bolívar). Grande decepção, pois, a de Trump e da União Europeia, ao terem o Exército venezuelano e a polícia instalado dispositivos de segurança que, durante a afluência aos locais de votação, mantiveram a ordem desejável, desencorajados que foram os habituais arruaceiros e atiradores furtivos mobilizados pela direita saudosa de Pérez Jiménez, Andrès Pérez e outros repressores. (Nações de várias tendências políticas e ideológicas saudaram, já, a Venezuela, pela forma como decorreram as eleições).
Trump e a União Europeia, juntos, a denunciar “ilegalidades” em eleições regionais na América do Sul, é algo que não surpreende. Tal como o facto de serem a Espanha de Mariano Rajoy e respectiva imprensa a ponta-de-lança, em Bruxelas, da campanha contra a Venezuela. A União Europeia toda se contorce na busca de “justificações” lineares para a aplicação de “medidas” contra o país de Hugo Chávez. Não se conhecem, todavia, “medidas” contra o país ibérico cujo partido no poder acaba de ver ingressarem na prisão, condenados a penas que somam cerca de 200 anos (!), vários dos seus filiados ou financiadores... País cujos cofres vêm sofrendo, mercê da corrupção, rombos calamitosos e jamais vistos na Europa e no mundo.
Como a maquinaria da vida mundial sacraliza e absolve uns e estigmatiza e persegue outros, nada perdemos com a adopção de variáveis ou diagonais portadoras de algumas luzes. Em Janeiro de 2001, cientistas norte-americanos (!) dos laboratórios Honeywell, da clínica Mayo e da Universidade de Minnesota, revelaram ao mundo a sua invenção de uma câmara térmica de alta definição que, “aplicada ao rosto das pessoas, permite apurar se elas mentem”. Não se tratava, claro, de uma novidade absoluta, dado que o chamado detector de mentiras era já um lugar comum, até, em sociedades europeias menos desenvolvidas. A novidade, segundo a revista “Nature”, consistia no método e na eficácia dos resultados, com as imagens térmicas a permitirem a análise quantitativa automática, portanto rápida, de alterações no fluxo sanguíneo facial. Os indicadores significariam um aumento da temperatura ao redor dos olhos, réplica possivelmente mediada pelo sistema nervoso simpático. Quero admitir que a intervenção dos laboratórios Honeywell sempre que a “América de Trump” e a União Europeia iniciassem “manobras” contra as Américas Central e do Sul, a África e a Ásia, talvez “ajudasse”.
No Dia da Resistência Indígena, há bem pouco celebrado, apenas se escutou, nas Américas, a voz da... Venezuela. Em cuja Assembleia Constituinte, em Caracas, têm assento oito representantes das históricas comunidades indígenas. O detector de mentiras, o novo, deveria actuar em Bruxelas quando, entre outras falsidades grosseiras, a representante da EU para a política externa, Federica Mogherini (ideologicamente inconfundível), declarou a Venezuela “país sumido numa gravíssima crise”. São “notícias” do “El País” (!!!), que acaba de inventar a seguinte versão das torturas e fuzilamento, em 1940, do nacionalista catalão Lluis Companys: “Ele morreu dando vivas ao Estado da Catalunha, não à independência da Catalunha!”. Esta atoarda certamente chamativa para os cientistas da Universidade de Minnesota foi subscrita pelo “intelectual” Santos Juliá, um dos respescados do franquismo.
E há mais sintomas. A União Europeia, com brechas na proa e no tombadilho, e invisuais no cesto da gávea, “congelará bens venezuelanos em países europeus e proibirá a exportação (para a Venezuela) de material susceptível de ser aplicado na repressão das populações” (!!!). Já em pleno alto mar da hipocrisia, os mesmos pregadores advertem que o objectivo é “exercer pressão sobre o regime, mas não com medidas que afectem os cidadãos” (!!!). A quem afecta, desde tempos quase imemoriais, o bloqueio económico a Cuba? O regime de Nicolas Maduro acaba de concluir, com a entrega de 1 milhão e 500 mil casas económicas, o primeiro ciclo do programa venezuelano de habitação. A Espanha tem milhares de pessoas sem tecto.
No Dia da Resistência Indígena, a Argentina viveu mais um episódio estremecedor da velha e sinistra cultura dos desaparecidos: Milagro Sala, activista, dirigente da etnia mapuche, foi de novo encarcerada. Encontrava-se em regime de prisão domiciliária (numa casa indecente que lhe fora imposta pelo regime de Maurício Macri, um dos “preferidos” de Trump e de Mariano Rajoy). Milagro Sala é uma resistente mapuche que reivindica direitos e bens ancestrais. A esta causa associou-se um jovem argentino “normal”, Santiago Maldonado. Quando Santiago, há cerca de dois meses, apoiava no terreno uma manifestação de protesto dos indígenas mapuches, foi espancado e capturado por polícias (responsabilidade do Estado). Continua desaparecido.

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