Opinião

As palavras não morrem

Manuel Rui

A cidade encheu-se de juventude, arrumadinha sem fazer engarrafamentos porque estava tudo nos passeios das ruas. Afinal as batas brancas que uma vizinha minha pendurara nos cabides tinham uma razão de ser.

 Pois, a cidade estava quase a pintar-se das batas brancas dos estudantes e a vizinha antecipava o negócio. Era mesmo muita gente. Os mais novos acompanhados por um familiar adulto. Mas tudo em ordem e cumprindo a ordem de chegada, quis saber e logo me explicaram que quem estava na frente tinha chegado de madrugada. Não faltava quem usava o banquinho para sentar, as sombrinhas para amenizar o calor do sol. E viam-se quitandeiras com mangas, bananas, ananases ou laranjas. Deliciei-me a ver uma criança receber a manga que o mais velho acompanhante comprou. Deliciei-me mais ainda, quando o menino dentou a manga grande, linda, bem colorida, foi descascando com os dedos e canjonjar enquanto eu imaginava o sentimento de uma criança no dia das matrículas e, pela memória, lembrei-me do meu primeiro dia de escola. Na escola 33 em Nova-Lisboa, ao pé do único edifício com primeiro andar, chamavam-lhe sapalalo. E comecei no feitiço das palavras que fazem a ligação mágica entre as pessoas. Alguém, com nome, terá plantado uma mangueira. Que foi crescendo até ficar árvore. E depois dar frutos. Quando maduras são colhidas. As quitandeiras compram as mangas para depois venderem para um parco lucro para juntar ao pouco que o marido ganha pois quitandeira não é mulher de ministro mas pode ser mãe de doutor, filho que gerou em seu ventre e andou nas costas da mãe enquanto ela trabalha e anda quilómetros e almoça com o filho da fruta que comprou. Então as crianças estão nas matrículas. Depois vão começar as aulas. Os mais ricos vão para os colégios com uniforme a rigor. Os do povo vão para as escolas públicas como esta que eu estava a ver, ali em frente à fisioterapia. Os mais ricos comem bem nos colégios ou levam dinheiro e compram nas pastelarias.  Entrando nesta magia a rádio estava a receber telefonemas sobre as matrículas. Que ainda havia corrupção. Directores e professores que cobravam “propina” ou “gasosa.” Verdadeiros vendedores ambulantes de matrículas que ainda não desapareceram mas há uma quase tolerância por se entender a prática como irreversível e o medo de denunciar e depois ser desforrado. Já eram várias as palavras que se juntavam. Tirando a magia já davam para uma redacção. Homem, árvore, escola, matrículas, quitandeira, manga, bata branca e escola. O relacionamento entre as palavras corresponde à forma como as pessoas se articulam na vida. Esta é a articulação da rua, do povo, da arte e do amor. Outra é a articulação de milionários ilícitos. Aí, as palavras terão de ser outras, por exemplo, branqueamento de capitais, crimes de colarinho branco, corrupção. A desfasagem entre as palavras e pessoas da quitandeira e os milionários ilícitos é que aquela base social nem sequer entende as palavras lá de cima. Sabem manga. O sabor saboroso da fruta. Mas não sabem o que é branqueamento de capitais nem tão pouco que é dinheiro do povo que se está a falar mas por regra se diz que é do Estado.

Estava a falar na magia, no peso especíifico da palavra sem a qual não existiria a história, a arte ou a ciência. Estava a falar na magia das palavras porque os jovens vão aprender nos livros textos de escritores angolanos. E vão constatar que quitandeira é uma das heroínas da nossa literatura. Não tem um só poeta nosso, que eu saiba, que fale em vendedoras ambulantes. Aqui, na magia das palavras, elas transportam também um conteúdo político.

Para os que se empenham em organizar antologias sugiro uma com textos literários sobre quitandeira. Quem não conhece os pregões das peixeiras e a magnitude dos panos que elas vestem?  

Ali, no lugar dessas matrículas, ainda vi um fogareiro com bombó e jinguba a torrar na chapa. Lembro-me da lição em Harare. Num dos melhores restaurantes, veio aquela carne com molho espesso, funji de mandioca e milho, duas tigelas com água morna. Como não estavam talheres na mesa eu chamei a empregada e pedi dois garfos e duas facas. Quando começámos a comer reparámos nos sorrisos e esgares pois aquela comida come-se com as mãos...

Como estou sentado como a senhora que fazia quitanda com o fogareiro, a mandioca e a jinguba, este meu exercício pode ser chamado quitanda de palavras.

Relembro aqui, datado de 1950, estes versos de Tomás Vieira Cruz:

“-Minha senhora, laranja,

Limão fresquinho, cajú,

Ananás ou abacate!...

        ………………………………..

E a quitandeira passou,

Saudável, viva, graciosa,

Com uma flor desfolhada

No seu sorriso escarlate (…).

 

Agora, deslumbra-me a ideia de sentir a magia das palavras quando os jovens estudantes tiverem a oportunidade de ler, sentir e cantar Viriato da Cruz:

“O pregão da avó Ximinha

É mesmo como os seus panos

Já não tem a cor berrante

Que tinha nos outros anos (…)”

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