Opinião

Atentar contra a saúde à vista de toda a gente

Luciano Rocha |

O veneno anda à solta pelas ruas de Luanda em forma de comida e bebida, com todas as consequências para quem, por ignorância, o consome, mas igualmente para o erário.

Esta introdução não pretende ser alarmista, mas um alerta sobre o que se passa na cidade, onde a cada passo são vendidos e comprados, de forma descarada e inconsciente, produtos alimentares sem o mínimo de condições de higiene e conservação.
Nada tenho nada contra a venda ambulante. Aprendi em criança o respeito devido a quem encontra nela forma de sobreviver. Jamais se despegaram de mim os exemplos de coragem contados por minha mãe sobre as senhoras que carregavam à cabeça balaios com fruta e peixe. Para os salários dos maridos, na maioria pagos à semana, ficarem menos curtos. Que, como ela, se levantavam ao cantar do galo. E chegavam a casa com o sol a espreguiçar-se sobre a baía, quando não, já com a lua a iluminar as nossas ruas, os nossos bairros, a nossa cidade pequena.
A esse respeito, incutido em casa, juntei, então, a magia do canto dos pregões das quitandeiras, das conversas, de todos poderem ouvir, com minha mãe e todas as vizinhas.
Naquele tempo, também havia vendedores de quitutes: micondos, queijadas de coco, bolos às fatias. Feitos em casa. Que surgiam nas ruas a meio da tarde. Em tabuleiros de madeira tapados com panos quase sempre brancos. Em “postos de venda” estratégicos. Nos caminhos de quem regressava do serviço na Baixa, das fábricas, a maioria no Bungo, das escolas.
A quifufutila e a paracuca também eram vendidas na rua. Em pequenos pacotes com forma de cones. De papel grosso cinzento. O mesmo de nas lojas para embrulhar açúcar, arroz, fuba, massa, tudo. O plástico ainda não poluía - pelo menos tanto! - o planeta.
Nem sequer o baleizão – era assim que naquela altura se chamava aos gelados –, vendidos igualmente na rua. Nem sequer paracuca ou quifufutila. Aconchegadas, também elas, nos cones de papel. Neste álbum de memórias, retenho, acima de tudo, o ar asseado do que se vendia e de quem vendia na via pública. Ao contrário do que, na maioria dos casos, sucede hoje, perante a indiferença de quase todos.
Nas ruas de Luanda, gigantesco “supermercado a céu aberto”, vende-se tudo. Até o que se não devia. Como são os casos, entre tantos, de vários quitutes e do pão! Em bacias destapadas, com enxames de moscas a sobrevoá-las. Também sandes, ovos cozidos em casa - quem sabe se de véspera - expostos ao sol durante o dia todo, tal como maioneses, mostardas e o molho de jindungo que os “tempera”.
Estes autênticos atentados à saúde pública também se verificam em “janelas”, muitos dos locais de “sopa e almoço”, inclusivamente em roulottes, simulacros de restaurantes e pastelarias. É verdade, mas isso são temas de outras estórias. As de hoje, são sobre o que se passa na via pública, aos olhos do transeunte comum. O problema tem solução. Que passa, salvo opinião mais abalizada, por campanhas, que devem incluir órgãos de comunicação social e sessões de esclarecimentos. Junto de vendedores e eventuais clientes. Neste caso, também nos locais de trabalho. Mas, igualmente dos agentes de fiscalização, muitos deles filhos, netos, irmãos de zungueiras. Que têm de ser pedagogos e não fazerem lembrar o tristemente célebre Poeira, chefe de posto, e ximbas que os acompanhavam.
O problema tem solução. Sempre mais barata do que a assistência às vítimas de doenças causadas por ingestão de alimentos impróprios para consumo. No fundo, ganhamos todos. Vendedores, clientes, e o erário.

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