Opinião

Auto resgate

Carlos Calongo

Do mesmo modo que a operação resgate está para continuar por tempo indeterminado, também estão as abordagens que nos obrigamos a fazer em torno dela e dos seus mais variados contornos, exercício que deve ser entendido como a nossa participação nesta ingente tarefa, que a todos nos deve engajar.

Não configura nenhum exagero referir que o “ruído” sentido na fase preparatória da operação, sobretudo a nível da componente comunicacional, continua a provocar alguns efeitos perversos no âmbito dos resultados globais que se esperam, daí, - estamos a fundamentar- a existência de vários exercícios de esclarecimento, mesmo em fase de efectivação da operação.

Tal exercício vale, para lá de outras coisas, para “amenizar” o sentimento de que a operação resgate é uma missão exclusiva da Polícia Nacional, percepção que, para além de redutora, pode resumir a referida operação ao prazer da força, atendendo ser esta a solução que certos efectivos da polícia encontram para pôr cobro a determinadas situações com que se deparam no exercício diário das suas missões.

E, em muitos casos, tais práticas resultam no cometimento de crimes tipificados como abusos de poder, de confiança, uso desproporcional da força e sobretudo de arma de fogo que, infelizmente, em alguns casos chegam a provocar mortes, com todas as repercussões negativas.

Por estes factos que podem ser taxados como artifícios, atendendo o sentimento de não serem institucionalmente recomendados, muitas vezes, as instituições do Estado são colocadas em situações contristáveis ao ponto de verem-se obrigadas a quase assumir que, “deu-se um tiro no próprio pé”.

Aliás, não são poucas as vezes que vimos os concidadãos, perante o que consideram excesso na actuação das forças da ordem, a reclamar justamente (?), em tom e expressões que remetem-nos a profundas reflexões em torno da operação resgate, em vários sentidos, sem que isso signifique o nosso “amem”, à desordem com que muitos cidadãos acham que devem viver.

Desta constatação, e porque até convém deixar claro que a operação resgate é algo que depende e precisa do empenho de todos os agentes do processo social, torna-se curial um apelo ao auto-resgate, aqui entendido como a operação que deve começar nas nossas mentes, nas menores acções, e que estas sejam expandidas a tudo o que o colectivo precisa para o verdadeiro resgate.

A aposta na educação da mentalidade humana parece ser recomendada, pois em certa medida, o êxito da operação resgate depende da maneira de ser e estar que cada cidadão decide adoptar como comportamento social, derivando disso as suas boas ou más acções e atitudes para o bem que se persegue.

O auto resgate impõe-se, também, a título de exemplo, na necessidade de abandonarmos o (mau) hábito de reclamar por tudo e nada, respeitando, claro, a liberdade que os cidadãos têm em assim proceder, enunciando parte dos direitos fundamentais estabelecidos na Constituição da República de Angola.

Compreendemos que o que acima se escreve deve ser entendido na “ressaca” do “Estado Providente”, que de quem os actos de assumir tudo e mais alguma coisa, ia para além da percepção da teoria de ser, o Estado, um ente de bem, salvaguardadas contra teses que sobre o assunto podem ser avançadas.

Precisamos, igualmente, resgatar o hábito de nos organizarmos em comissões  de moradores para, na perspectiva do poder autarca, começarmos a afinar as acções e decisões necessárias para o desenvolvimento da nossa comunidade, que a devemos ter como “pertença”, e fazer dela o melhor lugar para estar e viver, para além da circunscrição em que se exerça o poder real, que reside nos cidadãos.

Por fim, e ainda na senda da celebração do Dia da Cultura Nacional, comemorado a oito de Janeiro corrente, devemos nos oferecer ao acto de auto resgate das línguas nacionais, que tão-somente são o maior património cultural vivo, que mais do que um compromisso dos Estados, deve envolver todos os cidadãos, na sua conservação, por serem dos valores de uma cultura que melhor identificam uma nação, sobretudo rica como é Angola e que, acima de tudo e sobretudo, precisa de auto resgate.


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