Opinião

Bandeiras e músicas como motivos de campanha

Carlos Calongo |

Das muitas (boas e más) recordações das eleições de 1992, vem-me à mente o colorido que transformou algumas das principais ruas da cidade de Luanda (realidade que melhor domino), numa espécie de arco-íris artificial, promovido pelo conjunto de bandeiras e outros dísticos de identificação das forças políticas e respectivos líderes concorrentes ao pleito do referido ano.

O país assinalava a viragem da página do mono para o multipartidarismo, que até hoje é uma das mais indeléveis marcas da angolanidade, cujo percurso é irreversível, se considerarmos a dinâmica das sociedades modernas. A disputa pela hegemonia política não tinha como estar além do MPLA, UNITA e FNLA, a quem se juntaram outras formações políticas que tiveram destinos diferentes, sendo que algumas delas chegaram mesmo a desaparecer da pauta política nacional.
De modo geral, a disputa política ficou marcada por uma competitividade salutar, o que fez das  referidas eleições uma memorável festa, não fosse o que de errado a memória colectiva se  obrigou a registar no after day.
Ainda bem que é maior o universo de cidadãos dispostos a não dar tréguas a aventuras que tenham, a mínima que seja, semelhança com o passado triste da nossa história, pois para eles a vida continua e, como se diz entre nós, “A vitória é certa”.
Uma das formas de concretização da capitalização das marcas passa pela capacidade que os partidos devem ter para inundar as principais artérias dos centros urbanos, e não só, com os motivos das suas campanhas, aqui entendidos como as bandeiras, fotografias oficiais dos cabeças de listas. Isto no que tange à estaticidade, que pode ir mais além.
À guisa de exemplo, em 1992, era impossível imaginar algumas artérias do Cazenga e Rangel, apenas para citar estas duas, com a ausência de dísticos de certo partido, dada a relação da sua história com os referidos bairros tradicionais de Luanda.
Por esta conotação chega-se, rapidamente, à conclusão de que falta “agressividade“ por parte dos cabos eleitorais. Ou seja, é gritante a ausência de motivos de propaganda como as bandeiras e músicas, emergindo daí um fosso entre a realidade contextual e conceitual em que a propaganda, por definição, é considerada uma actividade humana quase tão antiga quanto o registo de uma das primeiras civilizações, mais recentemente teorizada como a técnica de comunicação mais “agressiva” do jogo político.
Pelo que nos é dado a ver, as campanhas de propaganda de alguns partidos políticos concorrentes às eleições de 23 de Agosto foram elaboradas à margem de um modo específico sistemático de persuadir visando influenciar com fins ideológicos, políticos as emoções, atitudes, opiniões ou acções do público-alvo.
Só assim se compreende que a música, outro motivo forte da linguagem propagandística, esteja, comparativamente às eleições de 1992, muito aquém da valia que ela representou para as emoções e atitudes dos eleitores. Aliás, não precisamos recordar que, hoje por hoje, ainda soa com agradável sonoridade rítmica e harmónica a música de Rui Mingas, quem tem como refrão o seguinte: “ Nem que seja desta vez, consola Santana”.

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