Opinião

Beleza e armadilha no “Sul Global”

Adriano Mixinge

“Intersecções no Sul global” (Intersections within the global South”) é o título da exposição inaugurada quarta-feira última, na Galeria Banco Económico situada no Nº8 da Rua 1º Congresso do MPLA, em Luanda.

A mostra estará patente até ao dia 16 de Janeiro de 2020: mesmo com o Natal, o fim do ano e o ano novo à espreita não ir vê-la, não será uma desculpa para quem, interessado e com sensibilidade pela arte contemporânea, aspira a sair da mesmice que, habitualmente, impera nos “circuitos da arte” da capital do país.
Pelo que podemos ler Graça Rodrigues e Sónia Ribeiro, as duas curadoras, na sinopse que a folha de sala da exposição traz, dizem-nos que dezasseis artistas plásticos contemporâneos internacionais, - nomeadamente, Alida Rodrigues, Andrew Tshabangu, Pedro Pires, Vivien Kohler, Bete Marques, Gonçalo Mabunda, Stephané Conradie, Januário Jano, Dillon Marsh, Patrick Bongoy, Saido Dicko, Nelo Teixeira, Lizette Chimirre, Luís Damião, Teresa Firmino e Rómulo Santa Rita - fazem uma “reflexão abrangente sobre algumas das mais relevantes problemáticas histórico-sociais vivenciadas nos seus territórios geográficos de origem” e que, em simultâneo, a exposição “explora criticamente os mecanismos de criação de cânones no meio artístico ocidental, privilegiando, através da direcção curatorial, a apresentação de obras que materialmente e tecnicamente se distanciam dos suportes e dos géneros artísticos convencionais”.
Chegados a este ponto, justiça que já foi feita à qualidade plástica, artística e, grosso modo, à beleza das obras apresentadas e, em geral, da exposição, devemos colocar uma série de interrogações, a saber:
De qual “Sul Global” fala a mostra? Como interpretar a exposição “Intersections within the global south” no contexto da geopolítica da arte e da cultura internacional? A ideia de “explorar criticamente os mecanismos de criação de cânones no meio artístico ocidental” é mesmo factível ou, no contexto da exposição, não passa de um exercício retórico que acabará numa intenção? Que desafios à exposição coloca aos outros curadores de arte que, desde Luanda, também operam nos circuitos internacionais?
Se bem a definição do “Global South” vem do vocabulário do Banco Mundial querendo substituir os conceitos de “países do terceiro mundo” ou o de “economias em vias de desenvolvimento” para dar a sensação que os países que, anteriormente eram apelidados daquele modo entram com dignidade na economia global, as curadoras, muito em particular a Graça Rodrigues, parece ter bebido das “Epistemologias do Sul” tal e qual e como as definem e recriam Boaventura de Sousa e Santos e Maria Paula Menezes, entendendo o “Sul Global” como um conceito de um veículo de resistências ou, na prática, como “metáfora da exploração e da exclusão social”.
O “Sul Global” à que a exposição se refere gira, atravessa ou conflui num lugar de passagem entre Angola, Brasil, Moçambique e a África do Sul. Socorrendo-se de artistas a meio das suas carreiras – todos eles nasceram do período das independências africanas, em diante - para, desde uma perspectiva comercial e museográfica que, em rigor, esvazia as suas reivindicações conceituais, interpreto a exposição “Intersections within the Global South” como uma tentativa de inscrever-se na dinâmica do mercado de arte das elites económicas e culturais do território imaginário escolhido.
Ainda está por ver-se até onde à exposição chegará e que audiência terá nos territórios geográficos do qual os artistas que compõem a mostra são originários. Relativamente a ideia que têm de “explorar criticamente os mecanismos de criação do cânone ocidental”, talvez fosse mais prático fazê-lo dentro de instituições artísticas ocidentais e, em rigor, em si mesma, à margem daquele cânone, o que a exposição tenta é começar a construir e a legitimar novas opções canónicas no “Sul Global”.
No entanto, nos últimos vinte anos, outros nexos e novas histórias se têm sedimentado em cima do passado colonial, de amizade e ou de guerra que unem Luanda, Rio de Janeiro, Maputo e Joanesburgo: e é a complexidade destas novas relações e as práticas artísticas que se vêm desenvolvendo nestes territórios, incluindo as armadilhas e a complexidade das mesmas que fundam novos espaços de convivência, de criatividade e de questionamento, que desafiam todos os curadores que, residindo em Luanda, também operam e projectam o seu trabalho a nível internacional.
Deste modo, caro leitor, se estiver em Luanda não deixe de ir à Galeria Banco Económico desfrutar da beleza e tentar descodificar as armadilhas da exposição “Intersectionswithinthe Global South”: é a arte a unir-se com sofisticação à época das festas de Natal, fim do ano e ano novo que se avizinha.

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