Opinião

Bossa Nova e Copa

Manuel Rui |*

Entre 1950 e 1960 o Brasil viveu grandes mudanças. Com o Cinema Novo, Centros de Cultura Popular, Teatro, vanguardismo nas Artes Plásticas, a arquitectura transcendente de Niemeyer. Em 1958 nasce a Bossa Nova com a batida de violão do guitarrista e cantor João Gilberto, com a música de Tom Jobim e a poesia de Vinícius de Moraes. Até Juscelino Kubitschec é chamado de presidente bossa nova. Mas como o que é bom acaba cedo… veio a ditadura militar em 1964. Aí, houve artistas que se exilaram, principalmente em Londres. Cantou-se de protesto e houve “grandes” astros da música que serviram de bófias para o regime ditatorial.

Os especialistas dizem que de início a Bossa Nova era um jeito de cantar e tocar o samba com elementos jazzistas e uma pronunciada suavidade, tanto no tratamento musical como poético, afastando a melancolia, a depressão, a angústia e a desilusão, cantada em voz baixa quase de cochicho em descompressão.
Eu estava de olhos no televisor para ver o final da Copa América, para mim, o melhor do futebol a seguir ao mundial. O encerramento solene. Organização impecável no mítico estádio do Maracanã. Na tribuna, Sua Excelência o Presidente Bolsonaro, seu timaço com destaque para o superministro Moro, o da lava jacto. Atrás, sobressai aquele negão, o guarda-costas, um autêntico armário e imagino a felicidade da família por ver o cara na tribuna a assustar qualquer longínquo afiador de facas.
De repente, no alto da tela a imagem de João Gilberto. A minha emoção, tantas vezes contida quando oiço Bossa Nova, ficou desmedida. João Gilberto morrera e o futebol futebol, não o futebol indústria, homenageava o artista ali, para que os milhares de torcedores presentes e todos os que seguiam a emissão nos quatro cantos do mundo observassem aquela atitude de cultura e humanismo.
Fiquei a meditar sobre Bossa Nova como algumas nossas flores do mato que de madrugada começam, de mansinho, a abrir as pétalas e, ao anoitecer, também de mansinho começam a fechar as pétalas para dormir e sonhar. Tudo por causa do compasso que vem do samba, depois faz uma espécie de síncope que parece um atraso no tempo para a palavra de simplicidade poética.
Óbvio que quando começou o jogo, lembrei-me do tempo de Dilma, manifestações contra ela, oposição contra a despesa com o mundial, os estádios, as Olimpíadas e para que não bastasse os sete a um frente à Alemanha.
Não acreditava num Peru indigesto como antigamente aconteceu, nem daquela desgraça contra o Uruguai. Queria ver o novo Brasil prometido pelo técnico Tite, de ginga e arte dos tempos de Mané Garrincha, Pelé e outros extraterrestres. E o jogo começou com pressão peruana até que aconteceu o golaço de Cebolinha. Encanta-me a forma teatral dos relatores ou narradores (como agora se diz) brasileiros que amarram o espectador ao futebol total, jogo, imagens da torcida e a sonoridade de prolongar a palavra Braaaaaaaaaasil!
Sobrou a dúvida dos dois penaltis mas o Brasil ganhou. A alegria inundou o país inteiro quase em prolongamento das festas joaninas. O Brasil estava unido por causa do futebol. Bolsonaro desceu ao gramado e depois da premiação, fez fotografia com o time no lugar próprio, de artilheiro! Pessoas que estão a meu lado comentavam “como é possível um presidente e …” eu, de manha, ripostei “qual será o cidadão brasileiro que não desejaria ser fotografado com Daniel Alves, Cebolinha ou Gabriel Jesus?”
Alguém fez gracinha: “foi para substituir Neymar!”
Afinal, Bolsonaro leva a água ao seu moinho. Dilma tinha manifestações contra ela. Nem sabia para onde se virar. Bolsonaro já teve manifestações a favor de Moro. Dilma perdeu no futebol. Bolsonaro ganhou. Como na tropa_ esquerda direita, um, dois…
Comenta-se que os adeptos de Bolsonaro não gostaram da maneira fria como o técnico Tite o cumprimentou.
Mas o que mais se comenta no Brasil foi a forma fria e seca, sem emoção, como Bolsonaro comentou a morte de João Gilberto. Quando morreu Tales Volpi MC Reaça, conhecido pelo seu apoio à direita, Bolsonaro lamentou: “Tales Volpi, conhecido como Mc Reaça, nos deixou no dia de ontem. Tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil. Que Deus o conforte juntamente com seus familiares e amigos.”
Já sobre a morte de João Gilberto, Bolsonaro comentou:
“Era uma pessoa conhecida.”
Não faz mal. Daniel Alves nasceu em Juazeiro, no Norte do estado da Bahia, aí terá estátua a esculpir por Leo Santana, o mesmo que fez a estátua de João Gilberto, também nascido em Juazeiro.
Nem Daniel Alves nem João Gilberto, brasileiros que o povo jamais esquecerá.
E a Bossa Nova continua com “Chega de saudade”
Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer (…)

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