Opinião

Búfalos, jacarés e os nossos camponeses

Manuel Rui |

Estava mais uma vez no Zimbabwe. Já no princípio do desastre Mugabe.

Antes, ainda havia conhecido Harare como uma cidade exportadora de flores, com excedente de milho, a maior, na proporção, em piscinas e campos de golf. Cheguei a falar na universidade, já sem “desenvolvimento separado” (racismo) para estudantes que não acreditavam nos pais. Havia estudantes de namoro inter-racial a que os pais se opunham. Sobre isso já escrevi. Mas nesse então, estava mais uma vez nas cataratas MOSI OA TONYA que quando o “sertanejo” inglês LIVINGSTON encontrou por acaso, em homenagem à rainha, passaram a chamar-se CATARATAS DE VITÓRIA. Imagino o deslumbramento de Livingston diante daquela obra de Deus, quase do tamanho dos milagres e curas do copo de água que uma certa associação de malfeitores faz por cá. A maneira como os ingleses “trataram” estas cataratas não tem nada com a maneira como os portugueses trataram as de Angola. O mesmo se passou com a conservação da natureza e a invenção da caça nocturna com farolim.
Saí do hotel Vitória de arquitectura vitoriana, majestático. E entrei na picada que ia dar a um miradouro para ver melhor, mais uma vez, a Victoria Foles. Nas margens da picada tinha verde de árvores e plantas. E búfalos pacíficos. Logo no princípio, olhei para o lado esquerdo e um búfalo fixou-me os olhos com a boca a ruminar espuma. Apressei o passo com descarga de adrenalina e urinei mais à frente.
No regresso, falei com um dos guardas florestais e ele arranjou-me outro caminho que ia dar a um hotel mesmo ao lado daquele de onde eu havia saído.
Todavia, começou aí a minha desempatia com búfalos. De que só me libertei quando vendo leões predadores a morrerem na luta com manada de búfalos. Passei para o lado dos búfalos. Mudava de atitude como tantas vezes o fiz na vida porque na infância, os predadores como o leão ou a onça, simbolizavam a força. Mais tarde, por causa do budismo, filosofia que admiro, por causa dos monges fiquei com os tigres. Hoje continuo com a paixão por elefantes e girafas e detestando cobras, jiboias e jacarés.
Estava na cama, procurando um canal de televisão que não fosse de concursos, telenovelas ou comidas contrariando os programas dos nutricionistas e dietistas. E apareceram-me búfalos à solta. No Kwanza Sul. Não eram búfalos livres mas de “aviário.” Era uma novidade para mim. Ainda passaram imagem dos currais dos búfalos com aqueles paus grossos como nos “ranchos” dos filmes de cobóis quando os bandidos invadiam para roubar os bois. Afinal já temos criadores de búfalos! Deve ser um grande fazendeiro. Pelo menos, cria búfalos e não é como outros a quem ofereceram fazendas e… alguns nunca as visitaram. A maka é que os búfalos se soltaram e atormentam os camponeses devastando-lhe as lavras. Nas imagens apareciam, andrajosos, os camponeses quase sem protestos mas só lamentação. Que os búfalos comiam tudo o que tinham nas lavras. Deram a imagem de um camponês emboscado em uma improvisada tenda de plástico no meio das árvores para proteger o que havia semeado, quiçá, quando os búfalos reaparecessem lançar uma pedra para assustar o herbívoro… se fosse com leão que cheira a carne nem pensar. Não disseram quem era o fazendeiro dos búfalos, obviamente, búfalos de carne em cativeiro. Era uma novidade a criação de búfalos em Angola. Quase de certeza que terão sido importados da África do Sul. Por mim, é preciso responsabilizar o fazendeiro para resolver a situação, de contrário, um dia destes está o administrador local a comer um lombi de feijão ou uma quizaca e entra-lhe um búfalo para compartilhar da refeição.
Mas o problema que estamos com ele é não deixarmos os camponeses desprotegidos. Se os búfalos tivessem invadido uma fazenda dessas quem têm quilómetros e mais quilómetros, com iluminação, cavalos e o povo diz de que muata é a propriedade, o fazendeiro dos búfalos já estava à pega na justiça. Mas os camponeses, a maioria do nosso povo, nem conhecem os mecanismos judiciais, nem têm dinheiro para demandar um advogado que os defenda. Certo que eles em legítima defesa deveriam, pelo menos, solicitar o abate dos búfalos e repartir a carne para comerem fresca ou secar.
Fiquei chocado com esta liberdade dos búfalos de aviário. E também com a notícia que no Cuando Cubango, como as aldeias não têm chafariz, as mulheres vão ao rio buscar água. Já morreram sete comidas por jacarés e tem outras mutiladas. Francamente! Não há dinheiro para bombas puxarem a água até às aldeias?
Contra os jacarés não posso sugerir nada porque eles não invadiram nada. As mulheres é que vão ao território deles e os antílopes, depois da guerra e da caça, já não vão beber ao rio e servir de alimento aos jacarés. Mas no que toca aos camponeses invadidos pelos búfalos, é preciso defendê-los. A Ordem dos Advogados, sugiro, deveria ter um departamento para defesa dos camponeses. Assim, já estaria um advogado com uma acção judicial e um procedimento cautelar de arresto sobre os búfalos que ainda moram na fazenda. E eu, já no fim da picada, desde já me ofereço para defender os camponeses. Honorários: um naco de carne de búfalo…

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia