Opinião

Cadeiras, amar ou evitar

Osvaldo Gonçalves

Ignoradas na Bíblia, na extensa obra de Homero e até em “Hamlet”, de William Shakespeare, as cadeiras nunca antes foram tão mal-faladas como agora. Analistas referem que é a partir de meados do século XIX, que elas passam a figurar na literatura, nem sempre pelas melhores razões.

Se, em relação aos porteiros e funcionários de secretarias e recepções sempre se notou uma certa dicotomia entre estes e os moradores e utentes, por um lado, e os ocupantes do cargo, por outro, que vai da confiança ao descrédito total, este pautado pela desigualdade no tratamento entre as pessoas que se encontram em tais condições, o mesmo não se pode dizer em relação a restaurantes e bares, onde, embora se mantenham a confiança e a desigualdade, seja porque os empregados vêm, normalmente, de classes mais humildes, seja porque “o cliente tem sempre razão”, o perigo iminente de alergias e até de intoxicações alimentares paira sempre sobre a cabeça de todos e de cada um.

Embora os especialistas estimem que, somando os escritórios, meios de transporte – rodoviários, ferroviários, aéreos e outros - bares, cafés, restaurantes, estádios, salas de espectáulos, cinemas, consultórios médicos, hospitais, teatros, escolas e as nossas própria casas, existam, em média, oito a 10 cadeiras por pessoa no mundo, ou seja, 60 mil milhões de assentos em todo o planeta, a cadeira continua a servir de meio de diferenciação entre as pessoas e, em muitos casos, de discriminação.

 

Símbolo de poder

A ideia das cadeiras como símbolo de algum status não é nova, mas perdura. Só que, segundo alguns estudiosos, ela pode dizer mais acerca de nós próprios que o contrário.

Se, nos tribunais, os réus ficam em pé perante juízes, procuradores, escrivães e demais funionários judiciais, enquanto estes permanecem sentados, nas universidades, os estudantes são chamados a fazer “cadeiras”, nas reuniões e assembleias, a pessoa que as conduz, homem ou mulher, é “chair” (man ou woman), e nas empresas e repartições públicas a melhor cadeira pertence ao chefe.

A cadeira é também símbolo de castigo,  de penitência. Na cadeira eléctrica, o condenado morre por electrocussão. É imobilizado nela e sofre uma série de tensões eléctricas. 

A “era da cadeira”, na qual vivemos, é tão elegante quanto perturbante. Esse assento, democratizado, sobretudo, pela Revolução Francesa, ganhou tal promoção e proporção, dentro e fora dos lares, que fica difícil associar esse móvel a algo de mau, sejam doenças transmissíveis, sejam adquiridas.

A verdade é que a democratização da cadeira, que coincide com uma mudança lenta nos nossospadrões de trabalho, remonta à mesma  época em que se regista um aumento de determinado tipo de enfermidades próprias de ambientes fechados.

 

“Era das cadeiras”

É natural que se dê mais atenção às doenças transmissíveis, sobretudo às viroses, e também às causadas por outros parasitas de maior porte, como mosquitos, carraças, pulgas e percevejos, e até às de origem bacteriana.

        Mas é importante lembrar que outros factores concorrem sobremaneira para o surgimento de males de difícil cura ou mesmo incuráveis, como o reumatismo, a esteoporose e o cancro.

Enquanto no período victoriano, a maior parte do trabalho realizado era manual ou fabril, no final dos anos 1980, as invenções foram retirando ao Homem uma presença mais assídua, até que, hoje, com as novas tecnologias, ela é bem menor e, nalguns casos, dispensável.

O “giboianço” tem os seus defensores. Há quem diga que, se a vida moderna nos apresenta um leque de comportamentos sedentários, as cadeiras são os caules dessas “flores”, são consideradas objectos necessários para se levar uma vida moderna e que a maior parte do que fazemos parece inimaginável sem elas.

Pesquisas apontam que o ser humano moderno passa cerca de 9,5 horas por dia sentado a uma secretária, e quando não o faz, está no carro, num bar ou restaurante, em casa. 

Fala-se em 75 por cento do tempo sentados, praticamente inactivos. Os humoristas dizem mesmo que, para alguns, os momentos mais activos passam-se durante o sono. A sonhar...

As cadeiras estão aí. É amá-las ou evitá-las. Mas não é possível odiá-las.


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