Opinião

Candidaturas, metas e realidade

Kumuênho da Rosa |

O dia em que o Mitanga Futebol Clube vir a público dizer que se for campeão do Girabola irá bater-se de igual para igual na liga dos campeões africanos não tenho a menor dúvida de que antes mesmo de por o champanhe a gelar vou beliscar-me com toda a força.

Longe de querer passar um atestado de incapacidade permanente à equipa de futebol que muitas alegrias deu às gentes de Nova Gaia, hoje Kambundi Katembo, quero tão-somente assumir com realismo, que aquela equipa de futebol amador que no tempo colonial entretinha o povo naquela zona de Malanje, mesmo que algum dia chegue ao campeonato nacional, o máximo que pode conseguir é fazer parte da festa.
Em eleições, para os candidatos, o período da campanha equipara-se à pré-epoca no futebol profissional, e o dia da votação ao campeonato inteiro, da primeira à última jornada. Ou seja, enquanto no futebol a decisão é diferida no tempo, em eleições a decisão corresponde a um período bem mais curto. Àqueles cinco minutinhos desde a recepção do boletim até à deposição do voto na urna.
A analogia parece forçada, mas parece-me a mais adequada. Não é que esteja a pisar em ovos. Longe disso. Julgo ser perfeitamente normal que tenhamos algum cuidado, para não ferir suscetibilidades.
Dizia que estamos em eleições, e naquela fase em que os candidatos estão, à partida, em igualdade de circunstâncias.
Independentemente da dimensão e capacidade organizativa do partido que dá suporte à candidatura, os candidatos são todos iguais.
Mas a interpretação desse princípio não pode e nem deve tolher-nos a capacidade de raciocínio.
A igualdade não pode significar ignorar ou até ocultar factos, sob pena de incorrermos numa injustiça até maior que aquela que o princípio pretende salvaguardar. Um maior domínio dos processos e das regras do jogo não faz dos candidatos melhores políticos. Até porque não conheço uma definição de bom político que reúna consenso. Refiro-me aos candidatos enquanto candidatos, e não como políticos, pois faltar-me-iam elementos para fechar um raciocínio capaz de gerar uma definição minimamente aceitável.
Antes do início de cada época do Girabola, ouvimos os responsáveis dos clubes anunciarem objectivos e metas. Qualquer prosélito do futebol sabe que, em função da dimensão de cada um dos clubes, há os que entram sempre para disputar o título e os que entram só para competir.
Claro que nenhum dirigente vai anunciar que espera perder todos os jogos e sair em último. Mas é preciso mostrar bom-senso. Nesta campanha os candidatos prometem o céu e a terra. Não há objectivos ou planos intermédios. A ideia que fica é de irrealismo. O facto de os partidos políticos estarem “obrigados” a apresentar um programa de governo, que determine as linhas da acção governativa para o período correspondente a uma legislatura, não faz deles iguais em termos de objectivos eleitorais.
À ideia de irrealismo e falta de bom-senso, os concorrentes ainda acrescentam algo que considero bem mais grave, que é declarar o óbito do seu próprio programa com direito a komba e tudo. Julgo não ser o único a ficar com a impressão de que muitos dos candidatos, depois da divulgação dos resultados eleitorais, em vez de fazerem dos programas de governo base para o trabalho político como oposição intra ou extra parlamentar, simplesmente engavetam-nos.

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