Opinião

Canto lírico em Angola

Manuel Rui

“Pois, quando chegámos a Cuba, os camaradas que já lá estavam a estudar estigaram: o quê? Vocês vão estudar canto lírico? Isso é mesmo lírico não dá pra comer lá na terra. O melhor é medicina.”

Foi assim que me falou Bruno Neto, o barítono do trio lírico. Estamos a falar de ópera, um género artístico teatral que consiste em um drama encenado acompanhado de música ou composição dramática em que se combinam música instrumental e canto que surgiu em Itália no séc. XVII. O trio de que vos falo inclui Bruno Neto, barítono, Gomes Domingos e Emanuel Mendes, tenores, outra classificação de vozes. Eles vieram de Cuba e já dão aulas no Instituto Superior de Artes (que eu nem sabia existir).
E começaram a cantar libretos (textos) de óperas conhecidas. Fiquei boquiaberto com o coração a bater de alegria por termos ido tão longe. Era o som musical. Reavivei a minha ideia sobre o mistério de eu conseguir ouvir o silêncio e escrever ouvindo música. O silêncio não deve ser perturbado. Só a música, a poesia e outras formas de arte podem-se fazer sentir exactamente por causa desse misterioso espaço que se chama silêncio. Fiquei a pensar que se Agostinho Neto aparecesse e ouvisse este trio mais o piano iria dizer que valeu a pena ter regressado. Três artistas de primeira água para mostrar ao mundo não ficando nada a dever a outro tenor, Nelson Ebo, a quem eu lhe disse que iria longe quando o ouvi na Casa 70. E foi, cantou para o rei em Espanha, teve sucesso na Europa e hoje é estrela em Nova Iorque. O trio tem particularidades que tocam a nossa ancestralidade musical, conseguem com fineza introduzir ritmo e até fizeram de um poema de Agostinho Neto um libreto. Cantaram mas tiveram de voltar ao palco por sujeição aos aplausos. Agora falta só organizar uma orquestra sinfónica.
Creio que a maior parte das pessoas que ali estavam nunca teriam ouvido canto lírico, embora haja libretos que se tornaram populares com as vozes de Mario Lanza e, mais recentemente, com o também já falecido Luciano Pavarotti e Andrea Bocelli, um e outro demonstrando que na música como em outras artes não há fronteiras, cantaram com bons artistas de música ligeira que também interpretaram. Não me esquece que na adolescência fiquei para sempre marcado pelas interpretações de Nat King Cole dos boleros mexicanos como El Bodegueiro ou Quizas. E hoje, parafraseando o grande poeta italiano Giuseppe Ungaretti, “deslumbro-me de imenso” a ouvir Andrea Bocelli a interpretar Quizas com a moça do violino que desce do palco para o violino conversar com a voz de Andrea e um violão acústico dedilhado.
Hoje, com todos os avanços tecnológicos, engenharias de som e muito mais como música no telemóvel, há quem fale em crise de criatividade correspondente à crise global, fazendo-se referência às manipulações televisivas. No entanto, importa reconhecer que para cantar é preciso saber ouvir como para escrever (literatura) é preciso ler.
Na casa onde vivi em Coimbra com colegas idos daqui, havia um lobitanga, filho de um muata dos Caminhos-de-Ferro de Benguela, que tinha boa aparelhagem e uma boa colecção de música clássica e óperas. Foi aí que eu aprendi a gostar porque gostar também se aprende como os bebés a papa. E escolhi minha ópera rainha a Carmen de Bizet. O libreto baseou-se numa novela de Mérimée. A estreia foi em 1875 na Ópera-Comique de Paris. Oiço-a de vez em quando e não me canso pela transgressão. Na estreia foi severamente punida pela crítica e só mais tarde em Viena, foi aplaudida por celebridades como Brahms, Wagner, Tchaikovsky e Nietzsche. Bizet morre antes do sucesso em Paris em 1883. Carmen é uma cigana que com o seu talento de canto e dança encanta os homens. Dom José é militar e ao envolver-se com Carmen vira um fora-de-lei e sua noiva tenta libertá-lo da cigana. Carmen “enfeitiça” um famoso toureiro de Granada. Tudo começa em Sevilha entre uma fábrica de tabaco e um quartel. Tem tabernas, contrabandistas, a música tem paladares ciganos mas Carmen também canta uma “habanera,” música cubana. E tudo acaba com DomJosé à entrada da praça de touros suplicando que volte para ele mas ela rejeita atirando o anel ao chão. Dom José mata Carmen com uma faca e a multidão a sair da praça de touros em pânico. Repare-se na profundidade do libreto como antecipação de coisas que acontecem nos nossos dias.
Para mim, Carmen é um símbolo da irreverência contra os falsos padrões morais que ao longo da história fizeram com que escritores e artistas fossem frequentes clientes dos cárceres, como na União Soviética com escritores que nos encheram os olhos e afinal eram bufos para meter seus camaradas no cárcere.
Vá lá Instituto Superior de Arte! Vamos levar o trio a um pavilhão para ser ouvido por mais gente e quem sabe, algum escritor angolano escrever um libreto para ser musicado por outro compatriota e surgir a primeira ópera angolana. Vamos!

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