Opinião

Carta das correntes

Manuel Rui

Todos os anos em Fevereiro a cidade da Póvoa de Varzim veste-se de sonhos para acolher o evento literário e artístico denominado CORRENTES D’ESCRITAS. E sente-se que quase toda a cidade se empenhou para o maior sucesso e projecção das Correntes, Ao longo de uma galeria que dá para o teatro Garrett, restaurado o ano passado, há uma passadeira com nomes de países por ordem alfabética e Angola logo no princípio. Carros com o símbolo das correntes e a frase “é bom viver aqui. E também à entrada das lojas há tapetes vermelhos com palavras a negro, “Correntes D’escritas/ esta casa também é uma livraria. Tudo funciona harmoniosamente com simpáticos rapazes e raparigas estudantes que nos atendem ao pormenor. Levei dois pares de óculos para concerto de uma haste e de uma lente solta. Arranjaram num ápice, ofereceram-me um cordão para pendurar os óculos e não me levaram dinheiro. Agradeci dizendo “e bom viver aqui.”

Nas Correntes, o principal é literatura. Escritores de vários quadrantes, integram mesas e, em cada uma é discutido um tema. Cada membro da mesa faz a sua intervenção. No fim os espectadores que costumam lotar o anfiteatro, podem fazer perguntas para os escritores responderem. O tema das mesas, geralmente, é um verso ou uma frase de um escritor, quase provocação aos escritores para num máximo de 12 minutos fazerem apelo à sua criatividade para criarem o que já foi criado. Na minha mesa é um verso da grande poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Anderson: E NUNCA AS MINHAS MÃOS FICAM VAZIAS. Celebram-se os cem anos do seu nascimento. Ela integrou um grupo de católicos progressistas que ousaram fazer uma vigília, dentro de uma igreja, contra a guerra colonial e em pleno salazarismo, regime que oprimiu os portugueses e muito mais as colónias como Angola.
Para além da literatura e uma pequena feira do livro, há lançamentos e apresentação de novas obras, também acontece música, cinema, recitais de poesia e a presença de grandes editores.
Na minha mesa, sexta 22 pelas 18h00 estarei com Goretti Pina, Hélia Correia, Joel Neto, Mempo Giarsinelli, Miguel Sousa Tavares, Sandro William Junqueira e Rui Zink.
As Correntes pagam voos em executiva com acompanhante (esposa ou esposo) e primeira classe nos comboios que nos levam de Lisboa até Campanhã onde estão os carros à espera. Da minha experiência em eventos deste tipo por esse mundo fora, este é o de melhor organização e empatia que faz com que os participantes convivam como membro de uma família e eu tive o privilégio de ser convidado vinte anos seguidos e dizem que já sou mobília da casa…
Não é pouco o dinheiro e a vontade dos patrocinadores. Certo que o Casino aqui da Póvoa é um dos pilares de suporte mas penso que é toda a cidade comercial. E as Correntes tornaram-se num evento carismático e começa a merecer uma classificação mundial na Unesco.
Um dos aspectos que valorizam as correntes é a escolha criteriosa dos convidados. O ano passado, um escritor da minha mesa, originário da Guiné Bissau, falou pouco mas depois entoou cânticos tradicionais da sua terra que empolgaram o público. O tempo não perdoa e, pelo caminho, houve colegas que partiram como o cabo-verdiano Corsino Fortes e o brasileiro João Ubaldo. Sempre que isso aconteceu foram aqui celebrados. Lembro-me de todos com muita saudade. Mais é do meu irmão Malangatana Valente. Dizia poesia, cantava e à mesa do jantar fazia desenhos com tinta azul de caneta e vinho tinto, molhava a ponta dos dedos da mão direita e fazia pequenas figuras. Era quase parar de comer e fazer fila para ganhar uma folha com desenhos do mestre. Não esqueço e guardo religiosamente a minha correspondência com o “Malangas.” Eu mandava-lhe palavras e ele respondia com desenhos.
A vida tem sempre coisas de espanto. Estive com Ondjaki em Guadalajara no México, não o reencontrei em Luanda e, agora, como ele é um dos predilectos do público das Correntes, alguém me bateu nas costas, “tio Rui” e era o Ondjaki.
Estou a escrever no quarto de hotel. Tive uma indisposição alimentar e não fui à abertura solene com o Presidente Marcelo que tenho como meu leitor e amigo a quem ofereço meus livros e ele agradece sempre com um cartãozinho que me envia através do nosso adido cultural em Portugal.
Ontem encontrei um jornalista cultural que vem pela primeira vez às Correntes. Falou-me de literatura africana que quer estudar embora já tivesse lido alguns escritores. Disse-lhe que era melhor largar o “africanas,” mas por países como acontece com as outras literaturas, inglesa, francesa, americana ou brasileira. Acabar com o “aviário” ou a guetização. Engraçado, ainda ninguém me veio com conversa política pois em Lisboa perguntam muito se já há aspirina e não largam a fome de desgraças para Angola sempre desejada por alguns retornados. Vamos fazer mais comum então?

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