Opinião

Carta aberta ao Ministro do Interior

José Luís Mendonça |

Excelentíssimo Sr. Ministro do Interior,
Escrevo para Va. Exa. na minha qualidade de jornalista, um porta-voz do cidadão.

É com o coração angustiado e uma grande preocupação na alma que lhe dirijo estas linhas.
A angústia provém de ter tomado conhecimento desde os idos anos do início deste século XXI que, em Luanda, há candongueiros a raptar mulheres, de preferência jovens. Para onde as levam, não sei  bem ao certo. Soube, de algumas que escaparam depois de uma sumária violação e falaram à imprensa, que o objectivo era violá-las e matá-las. Quem me contou uma destas cenas horripilantes e dignas do Inferno de Dante, foi uma ex-colega que escapou por obra divina.
Uma outra jovem me contou que, à saída da escola, ela e os colegas apanharam um táxi do tipo hiace e foram levados para sítio escuro, à noite, algures no Avô Kumbi onde foram ameaçados pelo cobrador armado. Este ordenou que todos, menos duas moças, abandonassem o veículo, fazendo dois tiros para o ar. Essas colegas da menina que me contou este rapto nunca mais voltaram à escola nem à casa da família.
Segunda-feira, um amigo mandou-me mensagem pelo Whatsaap com a foto do bilhete de identidade de uma jovem raptada e que apenas conseguiu atirar para fora do táxi a bolsa que levava. Pensei que isto era um acontecimento antigo que o meu amigo recebera com atraso.
Qual é o meu espanto quando na manhã de quinta-feira, 19 de Outubro, me telefona uma amiga a dizer que estavam todos aflitos no serviço porque uma colega havia sofrido uma tentativa de rapto, quando tentou apanhar um candongueiro quadradinho de vidros fumados. E dentro do táxi já viajava outra jovem raptada.
De observar tanto silêncio das autoridades angolanas, a preocupação que trago na alma se junta à angústia, Sr. Ministro.
Ninguém, neste país fala deste assunto. Apenas ouvi da boca de Sua Excelência, o Procurador Geral da República, um pronunciamento muito vago há dois anos sobre o rapto de menores. A nossa polícia nada diz, nada faz.
Estou preocupadíssimo porque hoje é uma mulher que só fico a conhecer de ouvir contar. Amanhã, pode ser a minha própria filha, Sr. Ministro!
E já alguma vez imaginou o Sr. Ministro que essa próxima vítima pode vir a ser a sua própria filha, a sua neta ou outro familiar seu do sexo feminino? E só quando a vítima for família de um ministro é que a Polícia vai desencadear uma acção de busca e detenção do candongueiro de vidros fumados?

Excelência,
Senhor Ministro do Interior,

Como porta-voz do cidadão, cumpre-me o dever de exigir ao Ministério do Interior que ordene a não circulação nas estradas e vias de Angola de táxis vulgo candongueiros com vidros fumados. Com efeitos imediatos. Assassinos e violadores estão a matar as nossas jovens mulheres, estão a destruir o futuro de Angola. É preciso pôr cobro imediato a esta onda continuada de crimes contra a segurança pública, a honra, a dignidade e a vida das nossas filhas, amigas, irmãs.
Eu até diria mais, Sr. Ministro. Num país como Angola, com estes problemas gravíssimos de segurança do cidadão, nenhum veículo devia circular com vidros fumados. Quem não deve nem teme, porque se há-de esconder atrás do vidro fumado? Sabe-se lá se este tipo de raptos não é também protagonizado por outros veículos que não apenas o candongueiro?
Na expectativa de que este apelo que lanço, em nome da menina raptada esta semana e de quem guardo no telefone a cópia do bilhete de identidade, seja levado em devida consideração por V. Exa. e pelo Sr. Comandante Ambrósio de Lemos, subscrevo-me, com a mais alta consideração.

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