Opinião

Cem anos que inspiram o mundo

Luísa Rogério

Nasceu no pequeno vilarejo de Mvezo, Transkei, no dia 18 de Julho de 1918. Os pais lhe chamaram Rolihlahla Dalibhunga Mandela.

 Quando entrou na escola passou a chamar-se Nelson. Na época era comum os professores atribuírem aos alunos nomes ingleses porque os britânicos sentiam dificuldade em pronunciar nomes africanos. Após a morte do pai foi viver com um familiar que lhe garantiu educação à altura da origem aristocrática. Estudou na elitista escola Clarkebury Boading Institute, exclusiva para negros e no internato “Colégio Healdtown”. Com 21 anos ingressou na universidade Fort Hare, a primeira a ministrar cursos para negros. Foi afastado por se envolver em protestos. A formação em Direito que o habilitou a ser advogado aconteceu depois de alguns dos acontecimentos que fizeram da sua trajectória incomum um legado para a humanidade.
Os traços biográficos da primeira etapa da vida de Nelson Mandela teriam dado suporte a qualquer pessoa para contrariar as estatísticas que conferiam a maioria da população negra a condição de cidadãos de segunda no seu próprio país. Mandela não se conformou. Desafiou as leis inspiradas na política de segregação racial. Membro do Congresso Nacional Africano (ANC), aliou-se aos históricos Walter Sisulo, Oliver Tambo e outros companheiros na longa jornada pela liberdade. A luta pela libertação do país que formalizou o vergonhoso sistema do apartheid, assente na classificação dos seres humanos segundo a raça, foi dramática. Ainda são notórias as consequências do sistema que colocava os sul-africanos de raça negra num patamar inferior. Felizmente, figuras como Nelson Mandela tiveram coragem para desafiar leis injustas. 
O duro contexto de disputa de causas que transcenderam a esfera jurídica, os julgamentos sucessivos, bem como as idas e vindas da prisão não inibiram os propósitos de Nelson Mandela. Os 27 anos vividos na cadeia onde foi sentenciado a cumprir pena de prisão perpétua fizeram dele um dos prisioneiros mais célebres da história universal. Ao invés de o silenciarem os seus algozes contribuíram para que o eco dos clamores se projectasse muito para além das fronteiras da África do Sul. Fruto de intensa campanha do ANC, que contou com a solidariedade de países da África Austral e da grande pressão da comunidade internacional, Nelson Mandela foi finalmente libertado aos 72 anos a 11 de Fevereiro de 1990. A ordem partiu do presidente Frederik Willem de Klerk, com quem Mandela partilhou o Prémio Nobel da Paz em 1993, devido aos esforços de ambos para que o processo de reconciliação não descarrilasse.
Ao sair da prisão concentrou esforços no desmantelamento do apartheid, da desigualdade e da pobreza. Foi eleito primeiro Presidente negro da África do Sul na sequência de eleições livres e democráticas. Estendeu a mão a De Klerk, nomeado vice-presidente da nova República. Nascia assim a nação do arco-íris, cujo hino nacional simboliza a congregação de ex-oprimidos e opressores num projecto de dimensão maior. Madiba, como é conhecido, poderia ter concorrido a um segundo mandato que teria ganho facilmente. Escolheu deixar o poder para os mais novos. Nelson Mandela podia ter governado apenas para negros. Teve a oportunidade de desencadear vinganças ao estilo de Robert Mugabe. Mas apostou no perdão e reconciliação como arma de redenção. Num curtíssimo lapso de tempo o “perigoso bandido”, segundo o regime racista, passou a ser factor de união entre filhos da mesma pátria. Dentre muitos livros, documentários, séries e produções cinematográficas, o filme “Invictus”, estrelado por Matt Damon, espelha um pouco da sublime metamorfose operada na mente e corações da maioria dos sul-africanos.
Chefes de Estados, políticos, escritores, desportistas e estrelas do showbizz à escala mundial o reverenciavam, assim como milhões de anónimos ao redor do mundo. Vergado ao peso da idade, abalos familiares e pelas consequências dos penosos anos de clausura na ilha de Robben Islands, Mandela retirou-se da vida pública em 2004. Morreu tranquilamente em casa, no mês de Dezembro de 2013. Tinha 95 anos. O seu funeral polarizou as atenções do planeta.
Cem anos passados desde o nascimento do homem que alterou o curso da História no seu país, crescem as homenagens a esta extraordinária figura. O Dia Internacional de Nelson Mandela, instituído consensualmente pelas Nações Unidas em 2010, assume a proporção de caminhada mundial de solidariedade. Se cada ser humano dedicar pelo menos 67 minutos do seu tempo em benefício de outrem estará seguramente a proliferar a sementinha da mudança chamada amor. O que são 67 minutos equivalentes ao número de anos dedicados por Madiba a luta por direitos, igualdade, inclusão e justiça social? O Dia de Mandela exalta o percurso profundamente inspirador dos cem anos hoje celebrados. O século de Madiba resume relevantes momentos históricos a que chamamos legado.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia