Opinião

Ciclone Idai

Sousa Jamba

Um conhecido moçambicano, com quem estive a conversar depois da devastação causada pelo ciclone Idai, disse que se tratava de ventos e chuvas de tal magnitude que nem os americanos iriam saber o que fazer.

 Até um certo ponto concordo com ele: o ciclone Idai já foi descrito como uma das piores calamidades meteorológicas do hemisfério sul. Foi com muita dor que vimos os nossos irmãos moçambicanos enfrentar, mais uma vez, uma calamidade que parece ter vindo de um daqueles filmes de desastres, que nos fazem lembrar a fragilidade da nossa existência.
Em todo o caso, está também mais do que claro que houve falhas notáveis por parte do Governo moçambicano. Os moçambicanos têm muito que aprender com os americanos; aqui não se trata só de recursos, mas também de planeamento. Os americanos valorizam muito o planeamento - uma qualidade que nós, os africanos, devemos passar a emular.
Estive em Jacksonville, Florida, a cidade onde vivo nos Estados Unidos, quando, em 2017, o furacão Irmã assolou a nossa cidade. Aquilo foi horrível; a parte baixa da cidade ficou completamente inundada; o pessoal dos primeiros socorros só conseguia passar por lá de canoas. Em todo o Estado da Flórida houve cerca de cinquenta fatalidades.
O efeito do furacão foi aliviado consideravelmente porque existe, entre as autoridades americanas, uma cultura bem enraizada de informar o público. Periodicamente, quando não há nenhum desastre, as frequências das estações de rádio e televisão são interrompidas para testes que garantem que elas podem servir bem na eventualidade de uma calamidade. Sabíamos exactamente o que fazer antes do furacão atingir a nossa cidade. Havia áreas no nosso município que tinham que ser evacuadas. Havia também vários abrigos para onde os cidadãos poderiam refugiar-se. Dias antes da chegada do furacão, fomos aconselhados a guardar boas quantias de água potável e comida enlatada. Houve, na altura, um aumento na venda de geradores e até equipamento solar para carregar os celulares, etc. Na altura, houve, também, um aumento substancial na venda de rádios à manivela. Isto tudo foi o resultado de um planeamento meticuloso.
Há uma falha gritante de planeamento no sistema governamental moçambicano. A partir do dia quatro de Março, os meteorologistas foram avisando as autoridades que havia sinais de um ciclone jamais visto. Nada foi feito. Depois da calamidade, alguém notou, apareceu na cidade da Beira, região que sofreu severamente, um Boeing cheio de ministros e entidades governamentais vindos do Maputo para darem nas vistas. Muito antes da tragédia, várias entidades na estrutura governamental moçambicana, assim como entidades do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, deveriam ter sentado para pensar seriamente o que poderia ser feito no pior dos cenários.
Depois das horríveis cheias de 2000 (em que vimos a menina Rossita a dar à luz por cima de uma árvore), houve várias iniciativas para mitigar os efeitos de cheias ou ciclones. Vários peritos de organizações internacionais foram para o país com vários programas para construírem edifícios que iriam sobreviver a tais calamidades, etc. Muitas destas iniciativas resultaram em relatórios impressionantes. A realidade, porém, demonstrou que estes esforços, que teriam custado milhões, provaram ser pouco eficazes no momento chave.
Se as autoridades moçambicanas levassem os meteorologistas a sério, e se houvesse um planeamento rigoroso, poderia ter havido uma evacuação das populações das áreas que foram afectadas. Quando nos Estados Unidos houve o furacão Katrina, em 2005, vimos o exército americano a entrar em acção para ajudar em vários esforços humanitários; aquilo foi, sim, uma operação militar que resultou em muitas críticas duras ao Presidente Bush, por ter agido tardiamente. As autoridades moçambicanas tiveram pelo menos dez dias para efectuar uma operação que teria salvo muitas vidas.
Muitos sistemas governamentais africanos não optam por acções preventivas bem pensadas porque operam numa cultura que preza mais o imediatismo. É difícil vangloriar-se por ter evitado uma catástrofe que poderá acontecer no futuro. No caso de Moçambique, há, também, partidarização desnecessária de muitos aspectos da sociedade. Daviz Simango, o chefe do município da Beira, é presidente do partido MDM. O esforço que Daviz Simango tem feito para enfrentar as constantes cheias na cidade da Beira tem sido apreciado por muitas entidades no mundo - menos as da Frelimo, partido no poder, e as da Renamo, partido a que Simango pertenceu no passado. A Frelimo, até, acusa Simango de pagar organizações fora do país para lhe conferir prémios.
E agora há a questão da restauração, por exemplo, da cidade da Beira, que ficou completamente arruinada. Numa situação ideal, o Governo já teria um projecto de recuperação. Espero que tenha! Os moçambicanos vão ter que pôr as suas afiliações partidárias de lado, sentar com as várias partes (autoridades tradicionais, sociedade civil, organizações não governamentais, empresários, comunidade internacional) para elaborar um plano urgente com várias fases para melhorar a situação. Claro que deverá, também, haver um órgão para coordenar todos estes esforços. Este órgão deverá ser liderado por alguém com competências provadas (e não aquela história do fulano ser filho ou filha de tal ou tal família). Certamente que os peritos de comunicação, que sabem informar bem o público e assim como os vários órgãos envolvidos no processo de recuperação, vão ser muito úteis. O mais importante é que, finalmente, haja uma cultura que preza a não repetição dos erros do passado. Os nossos irmãos lá no Índico merecem muito mais...

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