Opinião

Classe média porquê?

Carlos Gomes |*

A estratificação da sociedade angolana em todas as suas dimensões justifica-se pela necessidade do respeito pela opção feita, do sistema social de mercado, cabendo ao Estado o papel de promotor do desenvolvimento sustentável, sem ambiguidades, rigor e sensatez definindo as áreas de acção e intervenção do sector público e privado, estabelecendo linhas divisórias ou dicotomia entre o servidor público no pleno exercício da sua função e o agente económico, como partícipe do processo de transformação económica.

O Presidente da República, João Lourenço, não poderia ser mais assertivo que a par da diplomacia económica em que se tem desdobrado para convencer a comunidade financeira internacional que vivemos tempos de mudança na matriz económica angolana, faz igualmente um convite e apelo interno ao surgimento de uma classe média nacional que, como sabemos, é a ela que cabe o papel de motor de desenvolvimento, pelo interesse intrínseco de rentabilização dos seus investimentos, gerando renda, emprego, satisfazendo o mercado com maior oferta de bens e serviços, contribuindo para a receita fiscal com o pagamento dos devidos impostos, poupando recursos ao Estado que nas circunstâncias actuais, não poucas vezes, “desperdiça” recursos, alocando-os a projectos de vocação natural do sector privado.
O surgimento da classe média por via da afirmação de um sector privado pujante, justifica-se pela necessidade da inversão do nosso actual quadro, em que o Estado continua a ser o maior empregador, onerando sobremaneira os custos e encargos administrativos, enquanto que o recomendável seria o oposto, com o sector privado a garantir maior oferta de empregos, bens e serviços, protegida por uma política fiscal equilibrada que permita a arrecadação de receitas que não comprometa o seu crescimento à partida, pelas múltiplas vantagens que representa no xadrez macroeconómico no médio e longo prazos, pela eficiência na gestão de projectos; optimização na utilização de recursos materiais financeiros e humanos, enfim, um ente que não pode ser subestimado tão pouco ignorado, sob pena de marcharmos em contra pé, entre a opção política feita e a realidade prática que pretendemos reverter. Aliás, é no sector privado aonde se privilegia a competência em detrimento do compadrio; o mérito em oposição ao nepotismo; a justeza do ostracismo; a simplificação da complicação burocrática; a poupança da ostentação, a transparência da opacidade, etc.
Uma classe média forte, com benefícios em cascata, permite aferir a justeza da política económica comprometida com a criação e redistribuição justa da renda, que contrarie a tendência de surgimento aqui e acolá de “ricos” propensos à criação de monopólios e oligopólios, fazendo toda uma nação trabalhar para um punhado de endinheirados.

* Economista

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia