Opinião

Com a morte alheia também não se brinca

Osvaldo Gonçalves

A morte não toca a todos da mesma forma. É certo. Não nos referimos à própria, pois é sabido que essa, sempre injusta, chega rápido demais, ainda que, para trás, tenhamos deixado um longo rasto de dor. Os humoristas brincam com ela. Dizem que caixão faz calor.

 Outros, ditos realistas, afirmam que as urnas não têm gavetas, o que significa que aqui deixaremos tudo o que ganharmos na vida, a bem ou a mal.
Falamos, sim, da morte alheia, aquela que, de facto, nos toca. Porque, estamos vivos e sentimo-la. Quando nós próprios morrermos será que a sentiremos, temê-la-emos da mesma forma ou demonstraremos alguma indiderença, sejamos homem ou mulher, pai ou mãe, filho ou filha de alguém?
Aos militares - dizem - a morte toca menos, sobretudo, quando o infortúnio acontece do lado contrário. As baixas do inimigo são até motivo de comemoração. Já a coisa é diferente quando algum infausto nos bate à porta, quando alguém dos nossos cai.
A morte, quando é alheia, permite-nos até brincar, prometer aos outros mais anos de vida, motivá-los com o mais ténue sorriso, incentivá-los a viver e a procriar. Afinal, se a taxa de mortalidade infantil no Principado de Mónaco é de 1.80, no Japão de 2.21, em Singapura de 2.31, nas Bermudas de 2.47 e na Suécia de 2.74 por cada mil nascidos vivos, sabendo que esses são os cinco países com as mais baixas taxas de mortalidade infantil no Mundo; que em Cuba, 40º colocado no ranking, a taxa é de 4.83 mortes por cada mil nascidos vivos, na União Europeia, que na generalidade ocupa a 33ª posição, é de 4.49, nos Estados Unidos da América, 49º posicionado, de 5.98, e no Mundo inteiro de 42.09, ao ouvirmos o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Paulo Luvualo, dizer que a organização que dirige promete reduzir a taxa de mortalidade infantil em Angola para dois por cada mil, resta-nos nada mais do que fazer uma lista de convidados para o nosso komba.
Que ninguém ouse rir-se porque o homem falava à sério. A tal ponto que, ao pronunciar-se, em Luanda, à margem do 4º Congresso dos Enfermeiros de Angola, Paulo Luvualo referiu-se à contradição entre os dados do Indicador  Múltiplo de Saúde, o qual aponta para uma baixa de 115 para 44 óbitos em cada mil nados vivos, e os do Centro de Inteligência Americana, que falam de 68 por cada mil. Isto é, entre as duas referências há uma diferença de 47 para mais, no primeiro caso, e de 24 para menos, no segundo em relação à posição ocupada por Angola, segundo a OMS.
A crer nos dados disponíveis na Internet, Angola ocupa o 215º lugar, entre os 222 países referenciados, com uma taxa de 83.53 mortes por cada mil nascidos vivos, à frente ao Chade, com 93.61. O Afeganistão, onde a taxa de mortalidade infantil é de 121.63, ocupa a 222ª posição.
Mas o honorável bastonário, seguindo dados que não se percebe bem quais, fala em 12º lugar em 195 países. Ora, essa posição é agora ocupada pela Alemanha, com uma taxa de 3.51 crianças mortas em cada mil nascidas vivas.
Quando dizemos que a morte, sobretudo a alheia, toca-nos a todos de forma diferente, não queiram, pois, discutir. Se não, até o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, seria mais preciso nos números, ainda que fossem meras estatísticas e teria mais cuidado em falar em contradições, até porque se trata de uma autoridade no que diz respeito à Saúde.
Amanhã, a Ordem dos Enfermeiros deve emitir algum comunicado a esclarecer, mas, o que é certo e já vem tarde demais, pois, se com a vida alheia não se brinca, com a morte muito menos, sobretudo, quando se trata de crianças, mesmo sendo elas nossas filhas ou dos outros.

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