Opinião

Com a pobreza não se brinca

Osvaldo Gonçalves

O alto índice de pobreza em Angola devia, antes de qualquer outra coisa, merecer a atenção de todos. Mas, ao que parece, a precariedade que assola uns anima outros, que preferem a feijoada ao feijão, a mufetada à lambula crua ou grelhada.


“Jindungo no olho do outro é gelado”, dirão os que se julgam espertos e preferem que outros agarrem na enxada, enquanto perdem horas na manicure. Às 23h40 de uma sexta-feira, chama a nossa atenção uma mensagem pelo chatroom do Facebook. É um pedido de ajuda de um cidadão que se diz “muito pobre” e, por isso, precisa de apoio para realizar o sonho de se tornar num “grande fotográfico” (ipsis verbis).
O autor acena com a Bíblia no apelo choroso que nos dirige, pleno de boas maneiras, afinal é uma pessoa de origem humilde, pobre, “muito pobre”, segundo insiste, a precisar de ajuda. Sublevamos os atropelos à Gramática da Língua Portuguesa e decidimos ir adiante na conversa. Dessa forma, descobrimos que o “pedinte” estava em Benguela e tinha apenas 15 anos de idade. Nunca tinha vindo a Luanda, afinal, como poderíamos ajudá-lo, a ele, que tanto precisava.  A história tinha tanto de inusitado que chegámos a acreditar que tudo fosse terminar de forma abrupta, que algo deitasse tudo a perder, que nos bloqueasse, mas não. A Internet pregou-nos mais uma partida e a lligação caiu. De manhã, pensámos que tivesse sido apenas mais um sonho, um pesadelo, mas não.
Retomada a ligação no dia seguinte, ele lá estava. Resolvemos arriscar um pouco mais e ficámos a saber que “navegava” através de um telefone, mas um “ermão” tem conta bancária.
Um forte sentimento de revolta tomou conta de nós, aquele adolescente teria noção exacta das coisas? Uma visita ao seu mural no Facebook permitiu-nos tirar algumas ilações da pessoa. O teor das postagens e os comentários dos “amigos” em nada abonam em seu favor.
Pelo que pudemos verificar, nada indica que o rapaz viva “alguma situação de privação do bem-estar, como acesso limitado a serviços de saúde, baixo capital humano, habitação inadequada, má nutrição, falta de determinados bens e serviços, falta de capacidade para expressar pontos de vista políticos ou professar credos religiosos”, como referem os entendidos.
Por isso, ficámos a reflectir no que levaria um adolescente a colocar-se em tal situação, a expôr-se tanto, ao ponto de ser desmascarado com um simples click. Terá o rapaz noção do que é, de facto, a pobreza, sentirá algum prazer em fazer-se passar por pobre, “muito pobre”, como o próprio faz questão de mencionar?
Ou, pior que isso, estará ele interesado, por via do insucesso escolar iminente, do desemprego subsequente, da destruição da célula familiar a engrossar o exército demais de oito milhões de angolanos a viver em tais condições?
Nada nos pode convencer que um rapaz de 15 anos de idade que fica até altas horas da noite numa sexta-feira a “navegar” na Internet a partir de Benguela através de um telefone seja pobre, “muito pobre”,  como frisou. Terá ele noção do que é efectivamente ser pobre, viver com menos de 1,25 dólares por dia ou será mais um brincalhão a tentar ofuscar a imagem de quem realmente precisa de ajuda?

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