Opinião

Combate aos corruptos é mais do que intenção

Luciano Rocha

O combate à corrupção e a tudo que a compõe ou à qual está associada - bajulação, oportunismo, peculato, nepotismo - foi encarado, inicialmente, por muitos de nós, como mais uma promessa vã de campanha eleitoral.

Todos aqueles males, e tantos outros, estavam demasiado enraizados na sociedade angolana para ser possível acreditar que o combate à ladroagem, excepção à do anónimo e desgraçado pilha-galinhas, pudesse começar, quanto mais materializá-lo. Os ladrões de bens públicos continuavam a rapina, exibindo-a acintosa e ofensivamente, incitados pela impunidade, a servir-lhes de “anjo da guarda do mal”.
Tudo, no fundo, continuava a correr de feição aos larápios de “colarinho branco”, ensebados pela arrogância e exibicionismo que, de certo modo, lhes pode ter sido, pelo menos em alguns casos, fatal.
A primeira “figura pública” detida e posta atrás das grades por indícios, entre outros, de crime de peculato foi o então deputado e ex-ministro Augusto Tomás. Angola pode não ter aberto a boca de espanto, mas parte dela rejubilou e reacendeu a esperança na palavra de ordem de combate à corrupção, mesmo que gozasse do princípio de presunção de inocência. Afinal, não eram apenas os pilha-galinhas surpreendidos em flagrante na capoeira a ter de explicar à Justiça as causas de não ter resistido ao impulso de meter a mão em coisa alheia. Outra percentagem, ínfima, saliente-se, assustou-se, mas tentou disfarçar medos, com risos amarelos, e buscou subterfúgios, até refúgios, cá dentro e lá fora, mas também houve quem saísse a terreiro a defender o suspeito, não apenas em solidariedade pessoal, mas a própria pilhagem do erário feita até àquela altura, isto é, o perdão dos crimes de roubo dos bens públicos, em nome da “reconciliação nacional”.
Assim, como quem diz: “Eh pá, afinal ‘somos um só povo, uma só Nação, de Cabinda ao Cunene, do mar ao Leste’, vamos lá apertar as mãos, sentarmo-nos à mesma mesa, num quintal, para estarmos mais à-vontade, sem vocês macularem alcatifa de nossas vivendas, ainda se assustam a ver os pés a desaparecer, mármores das paredes, ébano e mogno das mobílias, deixarem cair copos de cristal, esvaziarem as garrafas de líquidos que nem o cheiro conhecem, quanto mais sabor. Se quiserem, vamos nos vossos cubículos, até comemos, na esteira, funji de bagre seco fumado. E, em nome dos tempos idos, bebemos birras para proteger a produção nacional”.
Os mesmos defensores do perdão de todos os crimes de desbaratamento dos bens públicos, registados durante um período de tempo que eles definiram, continuaram a reiterar, uns de forma surdinada, outros, mais aberta, as mesmas opiniões durante o julgamento do chamado “caso CNC” e após a leitura das sentenças entendem-nas injustas. Os réus, acentue-se, com excepção de um, recorreram, o que significa que as penas aplicadas podem ser atenuadas, manterem-se, agravadas, passarem a absolvição.
O julgamento, de qualquer modo, independentemente do desfecho final, por incluir, pela primeira vez, uma “figura de proa” na sociedade angolana, não apenas pela fortuna amealhada, mas pelos cargos que desempenhara, foi seguido com inusitada expectativa pela opinião pública. E confirmou que o combate à corrupção, como a todos os males que a compõem e à qual está associada, deixou de ser intenção, é certeza e não termina aqui. Porque a ladroagem do erário é muito maior do que, inicialmente, a maioria dos angolanos podia pensar. Os exemplos, como tentáculos de monstro envenenado, estendem-se a todos os sectores, como comprovam anúncios quase diários de detenções de gatunos do dinheiro público.
O pagamento de salários a trabalhadores inexistentes é das facetas da corrupção que, agora, chegou aos sobas! Angola, um dia destes, passa a ser conhecido pelos fantasmas que o habitam. Se calhar, quem pôs o país neste estado foram eles, os seres de outro mundo.

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