Opinião

Comerciantes nómadas

Sousa Jamba

No continente africano, fala-se hoje muito dos milionários — Strive Masiwa do Zimbabwe; Aliko Dangote da Nigéria, etc. Estes figuram nas páginas da Forbes magazine e há vezes que alguém fica com a noção de que eles são vistos em ter os africanos como sendo altamente excepcionais;

os Africanos, segundo um dos vários esteriótipos promovidos por aqueles que pretendem menosprezá-los, para os oprimir, não são inovadores. Já li em várias ocasiões afirmações de que se os Israelitas viessem para um Chade, em poucos anos aquele país seria transformado num paraíso. Há um jovem israelita que fez bilhões na República Democrática do Congo — mas de uma forma que levantou sérias questões sobre a ética daquele tipo de capitalismo: usando as suas ligações com as autoridades governamentais, o israelita foi comprando minas que revendia fazendo lucros astronómicos. Neste caso, a chave do segredo do sucesso do israelita for certamente as suas relações privilegiadas com as autoridades congolesas.
Em Luanda e várias partes de Angola, tenho encontrado muitos comerciantes chadianos. No meio de Malanje, na comuna de Cahombo, encontrei-me com um comerciante Chadiano que quase chorava quando lhe disse que eu conhecia bem o Abeche, a sua área natal. A capacidade que este chadiano tinha em identificar oportunidades empresárias no meio de Malanje era de admirar. Na Vila Alice, em Luanda, tenho frequentado um restaurante etiópie; os filhos dos proprietários, nascidos em Angola, falam amharic e português, com um sotaque marcadamente luandense. No Huambo, tenho um amigo empresário maliano, casado com uma angolana, que fala, até umbundu; entretanto, os seus negócios vão singrando.
Quais são as lições que os angolanos devem aprender destes comerciantes?
Um dos aspectos muito notáveis de todos comerciantes que imigraram para Angola é a sua dedicação ao trabalho. Isto parece ser óbvio. Porém, muito dos nossos pequenos empresários não dão conta deste facto. Pode dizer-se tantas coisas sobre eles mais estes comerciantes trabalham muito. Na Vila Alice, em Luanda, perto do prédio onde o meu irmão mais novo vive, há o Mohamed, jovem costa-marfinense que tem uma pequena loja de retalho e que um relacionamento muito próximo com os clientes que uns só aparecem para o saudar.
O Mohamed trabalha todos os dias das sete de manhã até às dez da noite, sem falhar. Ele disse-me que o lucro que faz nas vendas por cada artigo é pequeníssimo — eis a necessidade de ter a paciência de vender o máximo possível. Este senhor não gasta horas em óbitos, casamentos, grande festas etc.
Ligado a isto está uma profunda cultura de poupança. Todos os comerciantes com quem me tenho encontrado em Angola fazem questão de retribuir a sua gratificação. Os mauritanos sonham um dia enviar o dinheiro suficiente para criarem negócios nas aldeias de origem. Outro dia vi um documentário de uma aldeia na costa da Mauritânia, cuja economia estava a prosperar por causa de dinheiros de pessoas de lá espalhadas pelo mundo. O facto de muitos desses comerciantes estarem longe das suas famílias ajuda na poupança; eles não sofrem a pressão de parentes a quererem ser ajudados com frequência.
Luanda está cheio de comerciantes da Guiné Conacri. (Um deles ficou surpreendido quando lhe falei dos laços entre os líderes fundadores do MPLA e a Guiné Conacri, de Sekou Touré). Nesta comunidade de empresários, um dos capitais mais valiosos é a confiança; uma pessoa que não é digna entre os seus passa a ter má reputação e perde o crédito. É que muitos destes pequenos negócios operam na base de crédito: quem tem fundos importa os bens, e os seus confiados no canto vão retalhando.
Uma outra qualidade muito importante para os pequenos comerciantes é saber exactamente identificar o que é que o mercado precisa. No Huambo, há uma loja de guineenses onde eu vou sempre comprar saldo e onde se vendem, também, pequenos sacos de arroz. Curiosamente, este comerciante não vende só arroz importado; ele vende também arroz nacional. Este comerciante e os seus colegas estão sempre a ver a possibilidade de ter lucros.
Na Uganda, durante o tempo colonial, as autoridades britânicas fizeram tudo para favorecer uma classe de Indianos prosperar como comerciantes. Lembro-me uma tarde, estar a passear em Entebbe, cidade próxima da capital, Kampala, com um amigo que apontava as grandes lojas que no passado pertenceram aos indianos até que, num momento de loucura, o marechal Idi Amin confiscou as grandes lojas e ofereceu aos seus próximos, como o chefe da Segurança, Malyamungu. Claro que as lojas falharam. Quando, eventualmente, em 1986, o Yoweri Museveni ascendeu ao poder, uma das afirmações que não parava de fazer era que os africanos deveriam aprender as práticas dos asiáticos porque só assim é que passariam, também, a ser comerciantes de peso. Muitos ouviram o Museveni; hoje o Uganda começa a ter uma classe de empresários que até importam produtos de vários cantos do mundo. Sim, devemos levar os bilionários á sério; porém, não devemos ignorar os pequenos comerciantes.

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